Concreto aparente, tijolos vazados e paisagismo com espécies nativas dão forma a uma residência de 420 m² pensada para lidar com a luz intensa e o clima seco do Planalto Central.
Antes de qualquer linha de projeto, já havia uma árvore frondosa e nativa do cerrado plantada bem no meio do lote. Essa condição do terreno, em vez de ser contornada, virou o ponto de partida de toda a arquitetura da casa. O escritório Bloco Arquitetos, formado por Daniel Mangabeira, Henrique Coutinho e Matheus Seco, decidiu manter a árvore de pé e organizar os ambientes ao redor dela, criando um pátio central que hoje funciona como o verdadeiro coração da residência de 420 m² em Brasília.
Acompanhe as novidades no Google
Uma árvore do cerrado como eixo do projeto
A árvore não entrou no projeto como elemento decorativo de última hora. Ela definiu, desde o início, um dos limites do pátio a partir do qual toda a casa se organiza. Essa escolha estrutura o partido arquitetônico e evita o erro comum de tratar a vegetação existente como obstáculo a ser removido durante a obra.

O resultado é uma espécie de quintal interno, protegido, que concentra boa parte da vida doméstica da família. “Não se trata apenas de um recurso formal: o pátio amplia a iluminação natural interna, favorece a ventilação cruzada e aproxima os moradores da área externa em diferentes momentos do dia”, explica o arquiteto Daniel Mangabeira.
Pátio central resolve o clima de Brasília
Brasília tem duas estações bem marcadas, uma seca e outra chuvosa, além de uma relação direta com o céu e o horizonte, que deixa a luz natural especialmente intensa e direta ao longo do dia. Projetar para esse contexto exige mais do que abrir janelas grandes. Exige filtrar.
O arquiteto Matheus Seco resume esse desafio ao lembrar da célebre frase de Lucio Costa sobre o céu da capital. “O maior desafio dessa casa foi criar áreas de sombra e, ao mesmo tempo, permitir a conexão entre interior e exterior sem expor a casa à insolação excessiva”, afirma.

As paredes de tijolos vazados cumprem justamente essa função: filtram a luz sem bloqueá-la por completo, criam desenhos de sombra que mudam ao longo do dia e garantem privacidade sem fechar totalmente os ambientes. Combinados aos recuos e ao próprio pátio central, eles funcionam como uma camada de mediação entre proteção térmica e abertura visual, algo essencial em climas com insolação tão forte quanto a do Planalto Central.
Concreto aparente também organiza o espaço
A lógica construtiva da casa segue outro princípio importante: lajes e pilares de concreto aparente definem os principais planos da residência. A estrutura não fica escondida atrás de revestimentos. Ela aparece, define os volumes e assume o papel de protagonista na organização espacial, o que já indica uma decisão de projeto e não apenas uma escolha estética avulsa.

Algumas lajes foram propositalmente suspensas em relação ao solo, criando pequenos afastamentos que preservam a topografia original do terreno. Essa solução também facilita a circulação de pequenos animais típicos da região, como corujas-buraqueiras e calangos, e reforça a continuidade entre o jardim interno e o externo, sem interrupções bruscas entre os ambientes.
Na decoração dos interiores, essa mesma coerência se repete. Em vez de camuflar a estrutura com uma paleta ampla de cores e materiais, os arquitetos optaram por manter o desenho simples, apostando em materiais naturais que dialogam diretamente com o concreto aparente e os tijolos, sem disputar atenção com eles.
Paisagismo com espécies do cerrado completa o projeto
O paisagismo, assinado pela arquiteta paisagista Mariana Siqueira, fecha o conceito da casa ao trazer para o entorno espécies típicas do cerrado, coerentes com o clima seco da região e com a vegetação natural que já existia no terreno antes da obra. Essa escolha reduz a necessidade de irrigação constante e mantém uma relação direta entre a paisagem construída e a paisagem nativa dos arredores.

O conjunto formado pelo pátio central, pela estrutura em concreto aparente e pelo paisagismo nativo mostra como um projeto pode nascer de uma restrição do próprio terreno, no caso, uma árvore que ninguém quis derrubar, e transformar essa condição em partido arquitetônico. A casa não gira ao redor de um jardim decorativo. Ela gira, literalmente, ao redor de uma árvore do cerrado que estava ali antes de qualquer projeto existir.
| Para mais conteúdos do Enfeitedecora, siga o nosso X (Twitter), Instagram e Facebook,
inscreva-se no nosso canal no Pinterest,
no Google e acompanhe as atualizações sobre decoração, arquitetura, arte e projetos inspiradores. E-mail: [email protected] |





