Uma luminária que precisa ser cultivada antes de ser montada muda completamente a lógica da produção em série. É exatamente esse o caso da coleção Cenit, criada pela empresa mexicana de biotecnologia Polybion em parceria com o estúdio de design Natural Urbano. As cúpulas das peças pendentes e de mesa não saem de uma fábrica de vidro ou de plástico injetado. Elas crescem, literalmente, a partir de bactérias alimentadas por resíduos de frutas.
O material por trás dessa proposta se chama Celium, um biomaterial desenvolvido pela Polybion ao longo de mais de dez anos de pesquisa. Segundo Alexis Gómez-Ortigoza, cofundador da empresa, o processo é pensado como uma cadeia completa: resíduos agroindustriais de frutas se transformam em um meio de cultivo, esse meio alimenta bactérias produtoras de celulose, e a celulose bacteriana resultante passa por etapas de refinamento até virar um material aplicável em produtos de consumo.
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Como o resíduo de fruta vira material de iluminação
O ciclo começa nos restos que a indústria de frutas normalmente descarta. Esses resíduos fornecem os nutrientes necessários para que as bactérias se desenvolvam e comecem a formar celulose em camadas contínuas, como se fosse uma folha crescendo aos poucos dentro do tanque de cultivo.
Quando a folha atinge a espessura ideal, a equipe da Polybion faz a colheita. A partir desse ponto, o material passa por ajustes que definem espessura, flexibilidade, toque, cor e textura final, características que determinam se aquele lote de Celium vai virar uma cúpula rígida, um painel maleável ou uma superfície mais encorpada.
“Nosso trabalho tem se concentrado em transformar essa capacidade biológica em uma plataforma de materiais que possa ser produzida de maneira consistente, refinada para diferentes aplicações e integrada a produtos e cadeias de valor em vários setores”, afirma Gómez-Ortigoza.
Dois acabamentos, um mesmo biopolímero
O Celium existe hoje em duas versões principais. A linha Manto resulta em um material leve, translúcido e maleável, ideal para peças que precisam deixar passar luz de forma difusa. Já a linha Espumante tem sensação mais encorpada, com textura próxima à de uma espuma, o que amplia as possibilidades de uso do biomaterial em outros contextos além da iluminação.

Na coleção Cenit, o material aparece fixado a uma estrutura de madeira de freixo natural, montado em folhas sobrepostas. Essa sobreposição é o que garante o brilho quente característico das peças quando acesas, um efeito difícil de replicar com materiais sintéticos convencionais.
O que muda quando a luz é acesa
A relação entre luz e material é o ponto central da proposta da Cenit. Gómez-Ortigoza descreve essa transição de forma direta: “Quando a luminária está acesa, o material revela gradientes, textura e calor. Quando está apagada, o Celium mantém uma forte presença física por meio de sua superfície e de sua forma.”

Essa dupla identidade, funcional quando acesa e escultórica quando apagada, coloca a luminária sustentável em um território que ultrapassa a função de iluminar. Ela se comporta como objeto de design mesmo fora de uso, o que justifica seu apelo entre profissionais de decoração que buscam peças com presença visual constante.
Produção sob encomenda e outros desdobramentos
Diferente de itens fabricados em larga escala, cada peça da linha Cenit é produzida individualmente, sob encomenda, e leva cerca de cinco semanas entre o cultivo do material e a montagem final. Esse tempo reflete a natureza biológica do processo, que não pode ser acelerado sem comprometer a qualidade da celulose formada.
A parceria entre Polybion e Natural Urbano já rendeu outra peça com o mesmo biomaterial: a luminária Lapso, que usa longos filamentos de Celium para criar uma forma que lembra uma água-viva, em contraste direto com o visual mais limpo e geométrico da Cenit.
Um capítulo do biodesign que vai além da iluminação
O Celium integra um movimento maior dentro do biodesign, disciplina que transforma resíduos industriais em matérias-primas funcionais. Nesse mesmo campo já existem azulejos feitos de escamas de peixe e estruturas impressas em 3D a partir de milho, todos com a mesma lógica de aproveitar o que seria descartado.
No caso da coleção Cenit, o resultado prático mostra que resíduos de frutas podem se tornar ponto de partida para peças de design sustentável com identidade estética própria, capazes de disputar espaço em projetos de iluminação residencial e comercial ao lado de materiais tradicionais como vidro, tecido e metal.
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