A PRC Empreendimentos, incorporadora paranaense fundada em 2012, acaba de criar um fundo de inovação de R$ 10 milhões voltado a startups, scale-ups e empresas de tecnologia. O dinheiro vai financiar soluções de segurança predial, infraestrutura digital, conectividade, mobilidade urbana e experiência do cliente, aplicadas diretamente aos empreendimentos da companhia.
A iniciativa nasce junto com o Cidade Aruna, o projeto mais ambicioso da incorporadora até hoje, e representa uma virada na forma como a empresa pensa seus próprios ativos. Jean Vogel, que comandava a PropTech Ecosystems Builders, assume agora como head de Inovação da PRC. Cabe a ele prospectar e avaliar as oportunidades de investimento do fundo.
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“Para nós, um ecossistema de edifícios e infraestruturas vai muito além do hardware, a estrutura física; o verdadeiro valor está no software — nas ativações, conexões e serviços que permitem às pessoas empreender, trabalhar, morar e usufruir de lazer e cultura em um só lugar”, afirma Vogel.
Por que uma incorporadora cria um fundo próprio
Construir e vender sempre foi o núcleo do negócio imobiliário. A PRC quer ir além disso. A empresa passa a atuar também sobre os serviços e as tecnologias que moldam a rotina de quem mora, trabalha ou circula nos seus empreendimentos.
O capital do fundo vem de recursos próprios, uma porcentagem do VGV (valor geral de vendas) do Cidade Aruna. “A criação do fundo é uma decisão estratégica para financiar, impulsionar e integrar soluções, produtos e empresas que acelerem essa visão”, diz Vogel.
A tese de investimento não se limita a startups em fase inicial. A PRC quer trabalhar com scale-ups, empresas que já validaram o modelo de negócio e estão em expansão, além de companhias de tecnologia mais consolidadas. É uma aposta em maturidade, não só em risco.
As frentes que vão receber o dinheiro
O mapeamento da PRC organiza os investimentos em quatro áreas. A primeira é gestão e segurança, com tecnologias de controle de acesso, automação e segurança predial. A segunda é infraestrutura e conectividade, que inclui sistemas BESS de armazenamento de energia, data centers e serviços de nuvem.
A terceira frente é experiência do cliente, com ferramentas voltadas a proprietários, moradores, locatários e visitantes. A quarta é mobilidade e logística, cobrindo gestão de vagas, estacionamentos e eletromobilidade.
O portfólio deve crescer conforme novos projetos avancem. Em Itajaí, Santa Catarina, a PRC prevê um empreendimento com aeroporto executivo, o que abre espaço para soluções de mobilidade aérea e logística de cargas. É um bom exemplo de como o fundo se molda ao terreno, literalmente, antes mesmo do investimento acontecer.
Empreendimentos como laboratório
A PRC vai transformar os próprios projetos em ambiente de teste. Uma startup investida pode ter acesso a uma estrutura física real e a usuários reais para validar sua tecnologia antes de escalar. A empresa chama esse modelo de City Labs, laboratórios urbanos pensados para testar e aplicar novas soluções em contexto de uso, não em ambiente controlado de laboratório tradicional.
Esse é o diferencial da proposta. A maioria dos fundos corporativos investe e espera retorno financeiro. Aqui, o retorno também aparece em forma de tecnologia incorporada ao próprio produto da incorporadora.
O formato dos aportes ainda é flexível. A PRC pode contratar diretamente uma solução, fechar parceria comercial ou investir capital em troca de participação acionária, o modelo conhecido como venture capital. “Adotaremos um modelo dinâmico e sob medida. A estrutura de investimento dependerá do perfil da empresa, do estágio da solução e da urgência de sua aplicação”, explica Vogel.
O empreendimento não termina na entrega das chaves
Aqui está o ponto que separa essa estratégia do modelo tradicional do mercado imobiliário. A PRC quer romper com a lógica de construir, vender e encerrar o vínculo com o cliente na entrega. No Cidade Aruna, a proposta é manter uma operação permanente de serviços, negócios e convivência funcionando dentro do empreendimento.
O conceito combina moradia, áreas verdes, mobilidade e serviços, e se apoia no Novo Urbanismo, movimento urbanístico que busca aproximar diferentes atividades do cotidiano dentro de um mesmo território, reduzindo deslocamentos e fortalecendo a vida de bairro. Soma-se a isso o conceito de Smart Cities, cidades que usam tecnologia e planejamento urbano para tornar serviços e infraestrutura mais eficientes.
Para Vogel, a tecnologia só faz sentido quando está integrada a essa experiência de morar, e não como um acessório isolado do projeto arquitetônico. “A criação do fundo com recursos oriundos de uma porcentagem do VGV do Cidade Aruna nos confere agilidade e estrutura para mapear, atrair e acelerar oportunidades alinhadas às nossas teses e aos interesses dos parceiros”, afirma.
O modelo ainda precisa provar que gera valor nas duas pontas: para as empresas investidas e para os empreendimentos da PRC. É uma equação que poucas incorporadoras brasileiras tentaram resolver até agora. “Conectar o mercado imobiliário ao poder de transformação dos ecossistemas de tecnologia e inovação é o caminho mais rápido e eficiente para criar valor real para os ativos e para as cidades”, conclui Vogel.
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