A música desperta memórias, traduz emoções e revela aspectos da personalidade de cada indivíduo. Na arquitetura, o efeito é semelhante. Por meio da combinação entre formas, materiais, proporções e iluminação, os ambientes também provocam sensações, constroem histórias e, não por acaso, são frequentemente definidas como artes irmãs.
O escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe descreveu a arquitetura como uma “música congelada”, enquanto estudiosos apontam que as duas linguagens compartilham princípios como ritmo, harmonia, composição e equilíbrio. Se o músico organiza sons para elaborar uma melodia, o arquiteto organiza espaços para construir uma experiência.
Essa referência está presente no ambiente A Poética do Ritmo que a arquiteta Isabella Nalon assinou para a edição 2026 da CASACOR São Paulo. Tendo a música como uma das vértices do seu projeto, ela propõe que os visitantes reflitam sobre a relevância da música na vida e a possibilidade de desfrutá-la, em casa, por meio da presença de instrumentos, um toca-discos com um acervo de vinis e outros itens que acessam nossas memórias pessoais.
“A música sempre esteve presente na minha vida e nos projetos que desenvolvo. Quando você observa uma composição musical e arquitetônica, percebe que as duas trabalham sincronicamente”, afirma Isabella Nalon.
Sobre o especialista
Isabella Nalon, iniciou sua carreira atuando como arquiteta na Alemanha e, em 1998, inaugurou seu escritório em São Paulo. Se especializou em projetos arquitetônicos residenciais, comerciais e de decoração de interiores.
O resgate do toca-discos
Na opinião da profissional, o equipamento representou uma revolução nos lares brasileiros, principalmente nas décadas de 1970 e 1980, quando se tornaram itens mais robustos e desejados.
“O LP, tal qual conhecemos hoje, era a oportunidade que tínhamos para nos aprofundarmos no universo da música. Quem viveu nessa época se recorda da satisfação de adquirir o vinil desejado, incorporá-lo à coleção e realizar o ritual de colocar a agulha para tocar”, diz ela.

como nostalgia, mas como uma escolha consciente de permanência. O projeto engloba a marcenaria, que como uma caixa de música, recebe o
toca-discos, amplificador e caixas de som da Maison de La Musique e expõe os LPs como os grandes agentes desse momento | Projeto
A Poética do Ritmo – CASACOR São Paulo 2026 | Fotos: JP Image
Na relação com a arquitetura, esse prazer era um elo entre as famílias, que se reuniam em um ambiente devotado para ouvir as canções. Foi com a intenção de promover esse resgate que Isabella concebeu a sala de música em seu ambiente de 45 m² aberto ao público no Parque da Água Branca.
O sofá verde é um convite para ouvir com atenção. “Hoje estamos acostumados a escolher uma música disponível na plataforma de streaming e deixar tocando enquanto fazemos muitas outras coisas. Quero mostrar que a escuta direcionada nos permite alcançar as notas, a distinção dos instrumentos, o contexto e aquilo que expressa as canções do disco”, verbaliza Isabella que tem o toca-discos, amplificador e caixa de som como os protagonista da sala.
“Me sinto feliz por instigar a reminiscência daqueles que já experimentaram essas sensações e despertar, nos nascidos da geração Z até o momento, a vontade de experimentar”, complementa.
A decoração com instrumentos
Há quem tenha o apreço ‘apenas’ de ouvir, como também aqueles que levam a paixão pelos instrumentos musicais para dentro casa. Para a profissional, eles devem estar evidentes nos projetos, uma vez que reforça o pertencimento do morador e a expressão artística que o move.
“Sem contar que sua inclusão em uma sala de estar, por exemplo, ajuda a contar histórias, revelar hábitos, traços da personalidade e interesses do anfitrião”, diz ela sobre a observação de convidados.

Em um dos projetos assinados por Isabella, um piano de cauda se destaca em um amplo living. Além de atender à sua função original, o instrumento de memória afetiva participa da composição arquitetônica que une o tom da madeira do instrumento com o piso de madeira.

A música clássica também marca presença na A Poética do Ritmo. No projeto, que igualmente valoriza suas raízes, ela evidencia o violino que carrega a sua genealogia: uma singela homenagem ao seu avô, um imigrante siciliano e primeiro violinista que desembarcou no Brasil e conheceu sua esposa enquanto ela atuava como pianista. No ambiente, a presença de partituras antigas reitera a força do estilo musical em sua família e nas suas preferências pessoais.
“O ambiente na CASACOR diz muito sobre mim e por isso fiz questão de expor esse violino me acompanha há muitos anos. Quando eu olho para ele, lembro da história dos meus antepassados e tudo que a música representou dentro da nossa casa”, comove-se Isabella.

Mas nem sempre o artifício precisa aparecer de maneira formal na arquitetura de interiores. Muitas vezes, recostá-lo em um cantinho especial é o suficiente para corroborar com o poder de sua presença.

Isabella Nalon, ele se soma aos elementos decorativos presentes no ambiente | Fotos: Julia Herman
A presença da música na decoração nem sempre acontece de forma literal. Em alguns casos, ela surge como significado em composições artísticas.

E quando a música surge na arquitetura por meio de uma interpretação? Foi com esse intuito que a arquiteta organizou a instalação das obras assinadas pelo artista Matheus Guilherme. Formada por quadros de diferentes formatos e dimensões, a composição foi organizada para remeter visualmente à disposição das notas em uma partitura musical.
“A obra revigora a ideia de ritmo presente em todo o projeto. Nesse caso, ela não está em um instrumento, mas na forma como os elementos ocupam a parede e conduzem o olhar”, determina Isabella.
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