Há objetos que decoram. E há objetos que contam. A diferença entre os dois raramente está no preço ou no acabamento, está na camada de significado que carregam. Foi exatamente essa distinção que colocou Edite Cota Rocha Uchôa, artista plástica de Belo Horizonte com 70 anos e mais de duas décadas de ateliê, no centro de uma conversa que o mercado de decoração raramente para para ter.
O vídeo que viralizou mostra algo tecnicamente simples: uma receita de bolo sendo inscrita à mão, com pena, sobre um prato de porcelana pintada. Quinze minutos de trabalho, nada mais. Só que o conteúdo já ultrapassa 900 mil visualizações no Instagram e empurrou o perfil de Edite de 7 mil para mais de 53 mil seguidores em poucas semanas.
“As pessoas entenderam que ali tinha um afeto, uma história. Pegou a veia certa”, define a própria artista.
O objeto que lembra alguém
O grande erro de quem decora pensando apenas em estética é subestimar o peso emocional dos objetos. Um prato industrializado ocupa espaço. Um prato com a letra da avó ocupa memória. Essa diferença é o que explica por que comentários de pessoas dizendo que choraram ao ver o vídeo de Edite não são exagero, são a resposta natural de quem reconheceu, naquela peça, algo que já perdeu ou que quer preservar.
“O que eu recebi de comentários amorosos e afetuosos foi impressionante. Tinha gente falando que chorou, que lembrou da mã, da avó”, relata Edite.
A porcelana pintada à mão tem essa capacidade porque carrega dupla autoria: a de quem fez e a de quem encomendou. Quando uma receita de família é transferida para uma peça que vai durar décadas, o objeto deixa de ser decoração e passa a ser patrimônio doméstico. Esse é um conceito que o design industrial simplesmente não consegue alcançar.
Vinte e cinco anos antes do viral
O que o vídeo não mostra é que aquele prato é o resultado de 25 anos de construção silenciosa. Edite começou atendendo pessoas próximas, participando de feiras de artesanato e bazares em Belo Horizonte. A clientela cresceu de forma orgânica, sem estratégia de mídia paga, sem escala forçada — apenas pela qualidade das peças circulando de mão em mão.
“A rede foi se multiplicando por meio do produto, e eu também imprimo muito essa preocupação com a qualidade da porcelana e das tintas”, explica a artista.
Há cerca de cinco anos, o e-commerce trouxe uma nova camada de visibilidade. A estratégia de tráfego pago somada à presença autêntica nas redes, onde Edite aparece como ela mesma, mostrando o processo, a pena, as mãos, consolidou uma audiência que já existia, mas estava dispersa. “Eu quis estar ali do meu jeito, porque isso passa um valor de credibilidade da pessoa que faz”, diz.
Como o artesanal se sustenta em escala
O ponto mais técnico e menos discutido sobre o artesanato de porcelana é exatamente o que Edite resolveu com mais inteligência: como fazer o trabalho manual ser financeiramente viável sem industrializar o que não pode ser industrializado.
A resposta está na estrutura dupla de produção. De um lado, coleções com bases prontas, peças já decoradas que permitem personalizações rápidas, como gravar um nome, e podem ser enviadas em até dois dias. Do outro, os projetos exclusivos sob medida, que envolvem criação, risco manual e sucessivas queimas em forno para fundir a tinta ao esmalte da porcelana, com prazo de cinco a sete dias úteis.
“O trabalho artesanal não se paga se você ficar só trabalhando e pegando encomenda”, afirma Edite com a clareza de quem demorou anos para entender essa equação.
O prato de receita que viralizou se encaixa no primeiro modelo: a base decorada já está pronta, e os 15 minutos de escrita manual com pena entregam precisão e personalidade sem comprometer o tempo de produção. Esse equilíbrio é o que permite que, após a viralização, Edite tenha conseguido produzir quase 100 unidades do prato em poucos dias.
O que esses objetos fazem pela decoração de uma casa
Dentro de um projeto de decoração de interiores, peças artesanais com história cumprem uma função que vai além do ornamental. Elas criam ancoragem emocional nos ambientes, um ponto focal que não é apenas visual, mas narrativo. Uma mesa posta com louças pintadas à mão comunica algo completamente diferente de uma mesa com serviço industrializado, ainda que ambas sejam tecnicamente bem compostas.
O repertório de Edite vai desde a xícara de café com pires por R$ 38 até conjuntos completos que chegam a R$ 1,5 mil. A coleção “Passarinho”, com reposição semanal, e os pratos de família figuram entre os mais procurados, justamente porque são peças com identidade suficiente para serem o elemento de destaque em uma composição, não apenas o complemento dela.
Em datas como Dia das Mães, Natal e Dia dos Professores, o faturamento do ateliê atinge entre R$ 40 mil e R$ 50 mil mensais. O negócio conta atualmente com duas funcionárias e um estoque avaliado em mais de R$ 200 mil, números que mostram que a porcelana artesanal personalizada não é apenas expressão artística. É mercado real, com demanda consistente e crescente.
A peça que ninguém vai jogar fora
Há uma lógica prática que arquitetos e decoradores conhecem bem: o cliente troca sofá, renova parede, atualiza tapete. Mas raramente desfaz de objetos com história. O prato com a receita da bisavó não vai para a doação. O serviço de jantar pintado à mão para o casamento não some numa reforma.
Essa permanência é o que torna o artesanato em porcelana um investimento decorativo de longo prazo. Não envelhece, acumula valor sentimental ao longo do tempo, o que nenhum catálogo de decoração consegue prometer.
Edite planeja lançar três novas coleções nos próximos meses. Mas o que o viral deixou evidente é que o produto mais poderoso do ateliê não é nenhuma coleção específica. É a capacidade de transformar uma receita de família em algo que vai durar mais do que qualquer tendência de decoração.
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