O grande erro de quem busca um décor contemporâneo é tratar o passado como algo a ser descartado. Os projetos mais interessantes que circulam hoje nos escritórios de arquitetura de interiores fazem o movimento oposto: vasculham séculos de referência para encontrar o que resistiu ao tempo e reintroduzem esses elementos com precisão cirúrgica dentro de contextos modernos.
A arquitetura acumula soluções ao longo dos séculos de forma não excludente. O que foi criado para resolver um problema estrutural no século XVII pode, com os materiais certos e o olhar adequado, resolver uma questão de identidade visual em um apartamento com décor atual. Esse entendimento é o que diferencia um projeto com alma de um projeto apenas bem executado.
“Um clássico recebe esse status por ser algo que marcou a história e dificilmente será esquecido. Utilizar esses elementos entrega ao décor cenários disruptivos e irreverentes que são pura criatividade”, define a arquiteta Ana Rozenblit, à frente do escritório Spaço Interior, que tem na revisitação dos clássicos uma das marcas mais reconhecíveis de sua assinatura projetual.
Sobre o especialista
Ana Rozenblit, arquiteta, empresária e designer de interiores de alto padrão, amplamente reconhecida como um dos nomes mais expressivos da arquitetura de interiores em São Paulo.
Boiserie: das paredes dos palácios franceses ao quarto dos sonhos
Poucos Boiserie na decoração: como reinterpretar o clássico francês nos interiores contemporâneos. Nascida no movimento Rococó do século XVII, quando molduras ornamentais tomaram conta dos palácios franceses, a técnica atravessou séculos e chegou ao décor contemporâneo em versões acessíveis, produzidas hoje em MDF, gesso ou poliuretano. sem perder o poder de transformação que sempre teve.
O grande erro aqui é associar a boiserie apenas a ambientes clássicos ou de estética europeia pesada. Na prática, ela funciona com igual eficiência em projetos que mesclam o estilo romântico com referências mais limpas, criando profundidade e ritmo visual nas paredes sem precisar de outros elementos decorativos de peso.

Nos dormitórios, o recurso encontra sua aplicação mais solicitada. “Sem dúvidas, é o ambiente onde os clientes mais pedem a boiserie, pois ela entrega uma atmosfera onírica e elegante onde todos se sentem príncipes e princesas de suas próprias trajetórias”, conta Ana Rozenblit. A observação não é poética por acaso: o quarto é o espaço mais íntimo da casa, e a boiserie age diretamente sobre a percepção sensorial do ambiente, tornando-o mais acolhedor e com personalidade definida.

Aliás, sua versatilidade vai além dos dormitórios. Corredores, salas de jantar e até lavabos têm recebido painéis de boiserie como elemento de destaque, especialmente quando a intenção é criar um ponto focal sem recorrer a papéis de parede ou revestimentos mais custosos.
Brise-soleil: funcionalidade com estética que o modernismo consagrou
O brise-soleil, literalmente “quebra-sol” em francês, ganhou força entre as décadas de 1930 e 1940, durante o auge do modernismo arquitetônico. Associado inicialmente a grandes edificações e prédios comerciais, onde controlava a entrada de luz solar em fachadas robustas, o elemento migrou para o projeto de interiores residencial em versões proporcionais ao espaço doméstico e se consolidou como uma das soluções mais elegantes para delimitar ambientes integrados.

O que realmente faz a diferença no uso contemporâneo do brise é sua dupla função: ele controla a iluminação natural e, ao mesmo tempo, cria uma divisória que separa ambientes sem fechar o espaço. Em varandas amplas ou áreas sociais integradas, esse equilíbrio entre abertura e definição de zona é difícil de alcançar com outros recursos.
“Adoro trazê-lo por sua funcionalidade em varandas amplas ou ambientes integrados que podem contar com uma divisória vazada”, reforça Ana Rozenblit, que utiliza o mecanismo como ferramenta de organização espacial sem comprometer a fluidez entre os cômodos.
Os materiais variaram ao longo do tempo. Hoje, o brise aparece em madeira, metal, concreto e até em versões ripadas de MDF, adaptando-se ao vocabulário estético de cada projeto, do rústico ao industrial, do contemporâneo ao minimalista.
Espelhos com molduras: o barroco que nunca foi embora
A história dos espelhos no décor é mais longa do que parece. Antes de se tornarem elementos funcionais de banheiros e closets, os espelhos eram peças de prestígio, transportados e protegidos por molduras grossas e ornamentais que logo passaram a compor a própria decoração dos ambientes.

O décor contemporâneo caminhou em direção ao espelho sem moldura ou com guarnições minimalistas invisíveis. Essa escolha tem sua lógica: ela não compete com outros elementos do projeto e mantém o ambiente visualmente leve. Porém, o movimento contrário, trazer de volta a moldura barroca, a referência vitoriana, tem ganhado cada vez mais espaço justamente porque cria um ponto de tensão visual interessante dentro de projetos modernos.
Um espelho com moldura ornamental em um ambiente de linhas limpas não é contradição. É contraste intencional. E é exatamente esse tipo de decisão que eleva um projeto do competente para o memorável.

“O emprego de molduras antigas é uma maneira de contar e prestigiar a história humana através da arquitetura de interiores. Sua adição se traduz como um ponto inesperado no cômodo que nos transporta para outro mundo através do reflexo emoldurado”, descreve Ana Rozenblit, que usa o recurso como elemento narrativo dentro dos seus projetos.
Eletrodomésticos retrô: memória afetiva como decisão de projeto
As décadas de 1950 e 1960 produziram uma das estéticas mais reconhecíveis da história do design industrial: os eletrodomésticos coloridos. Geladeiras em verde-menta, vermelho-cereja ou amarelo-mostarda, lançadas originalmente nos Estados Unidos, conquistaram o mundo e chegaram ao Brasil com força até meados dos anos 1980.

Hoje, esses objetos voltam aos projetos residenciais por um motivo que vai além da estética: eles carregam memória afetiva. Encontrar uma geladeira retrô em uma cozinha contemporânea é, antes de qualquer coisa, um gesto de reconhecimento de história familiar.
O grande erro nesse caso é tratar o eletrodoméstico retrô como mera peça decorativa, um objeto de vitrine. Quando bem integrado ao projeto, ele ancora toda a identidade visual da cozinha ou do ambiente onde está inserido, funcionando como o ponto focal que dita a paleta de cores, a escolha dos metais e até o estilo da marcenaria ao redor.
Aliás, o mercado acompanhou esse movimento. Marcas internacionais como SMEG e Big Chill e linhas nacionais revisitadas oferecem hoje eletrodomésticos com estética dos anos 1950 e tecnologia atual, tornando a escolha retrô completamente viável do ponto de vista funcional e não apenas sentimental.
“Eles nos trazem uma memória afetiva muito grande, uma vez que encontramos alguns desses eletros na casa de nossos avós e antepassados”, reflete Ana Rozenblit sobre a camada imaterial que esses objetos adicionam a um projeto, transformando um ambiente em algo pessoal e insubstituível.
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