Existe uma diferença entre usar material reciclado por obrigação ambiental e usá-lo como ponto de partida criativo. O que um grupo de designers brasileiros vem produzindo nos últimos anos pertence claramente ao segundo grupo — e os resultados, apresentados na 22ª edição da SP-Arte, principal plataforma de design colecionável do país, deixam claro que o descarte deixou de ser limitação para se tornar linguagem.
Mais que uma tendência passageira, essa reorientação profunda na forma como esses profissionais entendem o projeto, faz que a matéria chegue com história, com marcas de uso, com oxidação, com imperfeições e é exatamente aí que o trabalho começa.
Quando o entulho vira estrutura
A mesa Dominó, do Assimply Studio, parte de um dado concreto: sua base é composta por 72% de resíduos reciclados de demolição coletados no Rio de Janeiro. Os fragmentos cerâmicos reaproveitados que formam o tampo não foram escolhidos apesar das suas imperfeições, foram escolhidos por causa delas. O espelho da mesma coleção vai além ao utilizar alumínio 100% reciclado, consolidando uma abordagem onde cada peça carrega rastreabilidade material.

O que a coleção Sobrepor, de Domingos Tótora e Gabriel De La Cruz, faz com papelão reaproveitado segue lógica semelhante, mas com uma camada de investigação artística mais longa. O material é recolhido em Maria da Fé, Minas Gerais, transformado em uma mistura moldada à mão e seca ao sol — um processo que preserva intencionalmente as marcas do tempo. “O desenho não impõe a forma, mas a deixa emergir”, define a proposta da dupla, materializada ao longo de mais de um ano de pesquisa e execução.
O tingimento das peças é feito com terras de diferentes localidades da região e as tonalidades variam conforme a procedência, e essa variação não é padronizada nem corrigida, muito pelo contrário, ela vira o argumento estético central da coleção.
O resíduo industrial como memória ativada
No Noemi Saga Atelier, a investigação parte de um território diferente: o descarte da indústria pesada. Engrenagens, fresas e peças usinadas recolhidas de processos industriais são reconfiguradas como mesas de apoio na coleção Reengrenagem. As superfícies marcadas por oxidação e desgaste não recebem tratamento para esconder essas marcas, elas são ativadas como linguagem visual. O resultado é uma peça onde o tempo de uso anterior ao projeto se torna parte do projeto.

Bases industriais sustentam hastes em latão ou aço reaproveitado, enquanto tampos em madeira introduzem um contraponto orgânico que equilibra densidade e leveza. São peças únicas, resultado de garimpo, usinagem e acabamento manual, o que torna cada exemplar irreproduzível. Essa irreprodutibilidade, aliás, é o que aproxima esse tipo de design sustentável do universo colecionável. Não há duas peças idênticas porque não há dois descartes idênticos.
Percival Lafer, 90 anos, e o aparador feito de sobras
Entre as peças apresentadas, o PLE-90 ocupa um lugar simbólico. Aos 90 anos, Percival Lafer lança um aparador construído a partir do reaproveitamento de fragmentos de madeira recuperada oriundos da própria produção da Etel. “Cada elemento carrega história e propósito”, sintetiza a proposta do designer, uma composição que traduz equilíbrio preciso entre forma, material e tempo.

O grande erro ao analisar o PLE-90 seria tratá-lo apenas como gesto simbólico de um nome histórico do design brasileiro, mas a peça funciona porque o projeto funciona:, ou seja, a composição com fragmentos não produz um resultado fragmentado. Ela produz unidade e isso exige domínio técnico, não apenas intenção ambiental.
Plástico como material de alto padrão
A coleção Inverso, da Suite, e a coleção Madre, do Superlimão em parceria com a Vaique, trabalham o plástico reciclado por caminhos distintos e ambos chegam ao mesmo argumento, unindo sustentabilidade e sofisticação.

A Suite levou meses de experimentação com pigmentos naturais como açafrão, pimenta e argilas para desenvolver as 15 peças da coleção, que combinam plástico reciclado triturado com fragmentos de pedra natural descartados. O resultado tem apelo tátil e visual imediato, nada que lembre o plástico no imaginário comum do material barato.
O Superlimão foi além ao aplicar o plástico reciclado translúcido em diferentes escalas, de estruturas arquitetônicas a peças inspiradas em técnicas ancestrais como cestaria e tecelagem. A proposta rompe com a estética habitualmente associada ao material reciclado e demonstra seu potencial como solução reaproveitável em contextos de arquitetura e decoração.
- Veja também: Tchau cinza! O que as pessoas estão escolhendo no lugar revela muito sobre como querem viver.
Quando o saneamento vira estante
A estante Castanhão, do Studio Érico Gondim, parte de um território que poucos designers ousaram explorar. A peça integra uma linha de quatro móveis — aparador, mesa e banquinho incluídos — desenvolvida a partir da pesquisa do RegeneraLab, conduzida em parceria com a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) em 2025. A investigação resultou em 15 produtos que exploram resíduos e subprodutos do saneamento como matéria-prima para criações autorais.

“O projeto articula sustentabilidade, inovação e memória industrial, propondo uma reflexão sobre economia circular e futuros regenerativos”, descreve o studio. O que a coleção evidencia, na prática, é que a pesquisa de material, quando levada a sério. abre territórios estéticos que a matéria-prima convencional simplesmente não oferece.
|
Para mais conteúdos do Enfeitedecora, siga o nosso
X (Twitter),
Instagram e
Facebook,
inscreva-se no nosso canal no
Pinterest,
no Google
e acompanhe as atualizações sobre decoração, arquitetura, arte e projetos inspiradores. E-mail: contato@enfeitedecora.com.br |





