Nem todo jardim bonito é um jardim habitado. Essa distinção, aparentemente simples, é o que separa o paisagismo funcional de uma composição puramente decorativa — e é exatamente a partir desse princípio que a paisagista Renata Guastelli conduziu o projeto de uma casa de campo de 150 metros quadrados localizada no interior de São Paulo.
O ponto de partida foi o desejo do cliente por referências italianas. Uma estética carregada de simbolismo: jardins geometrizados, ciprestes italianos imponentes, caminhos de pedra que conduzem o olhar, fontes como elementos de centralidade. Traduzir tudo isso para o contexto climático e cultural brasileiro exigiria uma leitura precisa do espaço e uma curadoria de espécies que respeitasse tanto a intenção estética quanto as condições reais do solo e do entorno.
“O desafio era equilibrar um estilo clássico com uma abordagem contemporânea e funcional, usando espécies que dialogassem com a referência italiana sem perder a identidade do jardim brasileiro”, explica Renata Guastelli.
Sobre o especialista
Renata Guastelli é arquiteta e paisagista, seu trabalho é focado no design biofílico e na criação de refúgios que promovem bem-estar, equilíbrio e conexão humana.
A entrada que já conta a história do jardim
A fachada principal estabelece o tom de todo o projeto antes mesmo de qualquer passagem pelo interior. O contraste entre as janelas azuis e as paredes de tijolos brancos não é coincidência visual: é uma escolha deliberada que prepara o olhar para um jardim trabalhado em camadas de cor, textura e movimento.

O pergolado de madeira, tomado por trepadeiras como o sapatinho-de-judia, resolve dois problemas com um único gesto arquitetônico: cria sombra sem fechar o espaço e incorpora a vegetação à estrutura construída, dissolvendo o limite entre obra e natureza. É o tipo de solução que parece óbvia depois que existe, mas exige sensibilidade para ser proposta.
O caminho de pedras irregulares que conduz ao jardim foi pensado para ser percorrido, não apenas visto. Entremeado por lavandas, gerânios e capim-dos-pampas, o percurso cria uma experiência sensorial, visual e olfativa, antes mesmo de chegar a qualquer ponto de destino. Esse cuidado com o percurso é o que diferencia um jardim visitado de um jardim vivido.
Quando o jardim produz além do que mostra
Um projeto de paisagismo residencial orientado pela estética italiana poderia facilmente se concentrar apenas nos elementos ornamentais. Aqui, a escolha foi outra. Pitangueiras foram incorporadas ao espaço junto com uma horta especial, introduzindo no projeto uma camada de praticidade que amplia o significado do jardim.
A coexistência de espécies frutíferas com plantas de apelo estético exige planejamento de convivência: espaçamento correto, compatibilidade de solo e luz, além de uma disposição que não comprometa a leitura visual do conjunto. O resultado, quando bem executado, é um jardim que oferece colheita sem abrir mão do décor.
A fonte de mármore branco posicionada no projeto cumpre a função que as fontes sempre cumpriram nos jardins italianos clássicos: marcar o centro, criar movimento sonoro e adicionar um elemento de permanência em meio ao que cresce e muda. O mármore, aqui, não é opulência — é ancoragem.
Estrutura vegetal que organiza sem fechar
O grande erro em projetos de paisagismo para casa de campo é usar a vegetação apenas como preenchimento de espaço, sem que ela exerça função estrutural. Neste jardim, a distribuição das espécies foi pensada para definir áreas, garantir privacidade e conduzir a circulação sem precisar de barreiras físicas.

Os ciprestes italianos e as palmeiras trabalham exatamente nesse papel. Posicionados estrategicamente, marcam limites visuais e criam verticalidade sem bloquear a iluminação natural. A escultora paisagista Renata Guastelli descreve esse equilíbrio como essencial: “a vegetação estruturada precisa definir áreas sem comprometer a circulação, cada planta tem uma função no conjunto, não apenas um lugar”.
O capim-do-Texas verde na entrada reforça essa lógica de transição: sua textura suave e movimento constante com o vento criam uma passagem orgânica entre o espaço externo e o jardim, suavizando o acesso sem marcar uma divisão rígida.
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A piscina, o deck e a gestão da privacidade
Nos fundos da propriedade, a piscina com deck de madeira integra o jardim de maneira fluida. A escolha de posicionar espreguiçadeiras sob ombrelones nesta área não é apenas conforto, também é a confirmação de que o projeto entende que um jardim de casa de campo precisa ter espaços de permanência prolongada, não apenas de passagem.

Os ciprestes ao redor da piscina resolvem uma questão que frequentemente é negligenciada em projetos residencais: a privacidade na área de lazer. Eles criam uma barreira vegetal que isola o espaço sem gerar sensação de confinamento, mantendo a conexão visual com o restante do jardim.
Os caminhos de pedra intercalados com gramado que conectam os diferentes pontos do projeto são, talvez, o elemento mais silenciosamente eficiente do conjunto. Eles não apenas orientam o percurso, mas também criam ritmo visual e reforçam a integração entre as áreas sem que o jardim perca a sensação de unidade.
O recanto que personalizou o projeto
Um detalhe que transforma um bom projeto em algo memorável: um recanto especial foi criado para homenagear a sogra do cliente. Essa escolha, à primeira vista afetiva, revela uma compreensão sofisticada do que o paisagismo residencial deve ser, um espaço que carrega a história e os vínculos das pessoas que o habitam.
Projetos que incorporam esse tipo de intenção pessoal tendem a ter uma relação de cuidado muito diferente com o jardim ao longo do tempo. Quando um espaço tem significado além da estética, ele é mantido com outro nível de atenção.
A seleção de plantas, composta por lavandas, gerânios, capim-dos-pampas, ciprestes italianos, palmeiras e espécies frutífera, foi pensada para garantir floração ao longo do ano e um jardim de baixa manutenção relativa. A diversidade de espécies cria um visual dinâmico sem exigir intervenções constantes, desde que o planejamento inicial de solo e irrigação esteja correto.
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