Há projetos que parecem resolver dois problemas ao mesmo tempo: o do espaço e o da identidade. O Apartamento Caquinhos, assinado pelo escritório paulistano COTA760 Arquitetura, é exatamente esse tipo de trabalho. Localizado na Vila Madalena, em São Paulo, o projeto parte de uma planta tradicional, com cômodos fechados e pouca integração, e chega a um resultado que equilibra leveza contemporânea com materiais de forte presença tátil e histórica.
A intervenção começou onde costuma ser mais difícil: na estrutura. O escritório optou por demolições estratégicas para reconfigurar o layout do setor social, unindo a cozinha e a sala de estar em um único fluxo. O resultado prático é imediato. Com a parede removida, a luz natural passou a percorrer todo o ambiente, e a ventilação cruzada voltou a funcionar como deveria em apartamentos dessa tipologia. Mais do que um ganho técnico, essa abertura mudou a lógica do espaço: a cozinha deixou de ser um setor de serviço isolado para se tornar o centro do projeto.
A cozinha como protagonista
Essa virada de papel da cozinha não é apenas funcional. No Apartamento Caquinhos, ela é o ambiente com mais personalidade e intenção projetual. O piso de caquinhos cerâmicos define o núcleo culinário com textura e rusticidade, criando uma marcação visual precisa que diferencia a cozinha do restante do setor social sem recorrer a paredes ou divisórias.

A bancada em granito Brasília escovado complementa essa escolha com uma superfície que também carrega história e durabilidade. O granito Brasília, com sua coloração escura e textura discreta, forma um contraste calculado com os tons de terracota que dominam a cozinha. Essa paleta cromática aquecida, concentrada em um único ambiente, cria um contraponto direto com a proposta mais neutra e serena da sala de estar, onde os tons são mais suaves e a atmosfera convida ao descanso.
O que o COTA760 fez aqui é uma operação de zoneamento por cor, algo que funciona muito bem em plantas integradas: cada espaço mantém sua identidade visual sem precisar de fechamentos físicos.
Cobogós como interface espacial
O uso dos cobogós é outro ponto central do projeto, e talvez o mais revelador sobre a abordagem do escritório. Em vez de separar a cozinha da área de serviço com uma parede convencional, o COTA760 utilizou os elementos vazados como interface entre os dois espaços.

Essa escolha preserva o fluxo de ar e a passagem de luz entre os ambientes sem criar a sensação de corte ou isolamento visual. Os cobogós, por sua natureza geométrica e ritmo repetido, também agregam textura à composição, funcionando como elemento decorativo e funcional ao mesmo tempo.
É uma solução que já aparecia nos edifícios paulistanos construídos entre as décadas de 1940 e 1960, quando os cobogós eram amplamente utilizados para ventilar lavanderias, áreas de serviço e fachadas de apartamentos de classe média.

Ao trazê-los de volta nesse contexto, o projeto não busca nostalgia. Busca pertinência: esses elementos dialogam com a escala do bairro, com a memória construtiva da cidade e com a tipologia do apartamento em que foram instalados.
Compensado naval e a lógica da marcenaria
A marcenaria em compensado naval fecha o ciclo de materiais do projeto com uma escolha que, à primeira vista, pode parecer simples, mas carrega coerência projetual clara. O compensado naval tem acabamento natural, superfície lisa e uma expressão gráfica que evita o excesso decorativo. Em um projeto com tantas camadas visuais, como o piso de caquinhos, os cobogós e a terracota, a marcenaria funciona como elemento de equilíbrio, garantindo que nenhum material dispute atenção além do necessário.

Essa escolha também reforça o caráter tátil do projeto. Todos os materiais presentes no Apartamento Caquinhos têm textura perceptível: o caquinho, o granito escovado, o cobogó e o compensado. É uma decisão que vai além da estética e atinge a experiência sensorial do espaço, algo que projetos de renovação muitas vezes negligenciam ao priorizar acabamentos lisos e uniformes.
Memória e Vila Madalena
Não é por acaso que um projeto com essa linguagem esteja localizado na Vila Madalena. O bairro acumula camadas históricas que convivem com a produção arquitetônica contemporânea de forma bastante natural: casas de vila dos anos 1950, edifícios modernistas, ateliês e apartamentos reformados convivem no mesmo quarteirão. O Apartamento Caquinhos dialoga com essa estratigrafia sem tentar reproduzi-la. Ele a reinterpreta.

O piso de caquinhos, em especial, carrega uma memória coletiva forte para quem cresceu em São Paulo. Durante décadas, esse revestimento cerâmico esteve presente em cozinhas, banheiros e corredores de apartamentos e casas paulistanas.
Seu ressurgimento nos projetos contemporâneos não se dá por modismo, mas por uma redescoberta da sua eficiência: é durável, de fácil manutenção, tem boa resistência à umidade e oferece variações de padrão que permitem composições autorais. O COTA760 Arquitetura soube trabalhar esse material com precisão: delimitou seu uso ao núcleo da cozinha, sem espalhá-lo por todo o apartamento.
O que o projeto revela sobre renovação
O Apartamento Caquinhos oferece uma leitura clara sobre o que significa renovar com intenção. Não se trata apenas de atualizar um apartamento antigo com acabamentos novos. O projeto propõe uma releitura do que o espaço pode ser, a partir de materiais que têm história e de intervenções que respeitam a estrutura original sem se submeter a ela.

A integração entre sala e cozinha, a escolha do piso de caquinhos cerâmicos, o uso dos cobogós como divisória e a marcenaria em compensado naval formam um conjunto que comunica personalidade sem precisar ser exuberante. Cada escolha tem função e cada função tem forma: essa é a lógica que o COTA760 Arquitetura aplicou ao projeto, e o resultado fala por si.
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