Há uma frase que define bem a filosofia do Povoa Lab: “eu só faço o que seria muito difícil ou quase impossível fazer em outro método”. Quem diz isso é Fernanda Povoa, arquiteta e artista brasileira radicada em Berlim, criadora de um estúdio onde resina, impressão 3D e expressão matemática se cruzam para dar origem a vasos, adornos escultóricos e luminárias que desafiam o que normalmente se espera de um objeto decorativo.
O Povoa Lab funciona como um laboratório de experimentação sensorial, onde cada peça nasce de um processo técnico rigoroso, mas carregado de intenção artística. O resultado são obras translúcidas, com aspecto molhado e brilhante, que reagem à luz de maneira única e ocupam o ambiente com uma presença que vai além da função.
Da engenharia à resina
Fernanda cresceu em Araguari, no interior de Minas Gerais, e iniciou seus estudos em Engenharia Mecânica na Universidade Federal de Uberlândia antes de migrar para Arquitetura e Urbanismo na Universidade de Brasília. Esse percurso não linear importa. É dele que vem a base técnica do trabalho: o uso de programação, expressões matemáticas e modelagem computacional como ferramentas de criação formal.

Depois de um mestrado em Turim, na Itália, foi em Berlim que encontrou solo mais fértil para sua prática. A Alemanha oferecia não apenas oportunidades profissionais, mas um ambiente cultural propício para o tipo de produção que se desenvolve na interseção entre arte, tecnologia e design de objetos.
“Na arquitetura e na arte, tudo sempre esteve ligado à tecnologia de determinado período, e o que ela tem a oferecer para ampliar nossa expressão artística”, afirma Fernanda.
Essa convicção atravessa cada etapa do processo. Ao contrário do movimento que explora o metaverso e a virtualidade como destino final, Fernanda percorre o caminho inverso: toma formas geradas em ambiente digital e as materializa. “As pessoas têm abordado essa questão do metaverso, e eu queria fazer exatamente o contrário: tirar do computador e trazer para a realidade palpável”, conta a artista.
Impressão 3D, camadas de resina e encaixe sem cola
Antes de chegar às esculturas luminosas e aos vasos de orquídea, Fernanda percorreu um caminho de investigação pelo universo do wearable art. Foi produzindo objetos menores, próximos do corpo e experimentais, que ela mapeou como a resina impressa em 3D se comportava frente à luz, como os encaixes funcionavam e qual a lógica das transparências.
Esse aprendizado foi transferido para escalas maiores. As peças do Povoa Lab partem de arquivos digitais processados em máquinas de impressão 3D em resina e, após a impressão, recebem acabamento manual em múltiplas camadas de resina espessa. É esse processo em camadas que garante o aspecto brilhante e molhado, característico das obras é uma superfície que capta e distribui a luz de forma completamente distinta do vidro ou do acrílico convencional.

Um dos aspectos mais particulares da produção é a ausência total de cola. Ao notar que qualquer material externo comprometia a integridade visual das peças translúcidas, Fernanda desenvolveu um sistema de encaixe baseado em peso, estrutura e equilíbrio. Cada módulo é uma entidade independente. “São elementos separados, entidades distintas que se autossuportam e usam a gravidade como uma espécie de cola”, explica.
O grande erro de quem trabalha com materiais translúcidos na decoração é subestimar o impacto das emendas e junções, elas aparecem na luz e quebram a leitura visual da peça. No caso do Povoa Lab, a solução construtiva também se torna parte da estética.
Vale mencionar o lado técnico: em estado líquido, a resina é altamente tóxica, exigindo respiradores e sistemas de filtragem ativos no ateliê. Após a cura completa, o material sólido deixa de representar qualquer risco. Esse dado técnico é relevante para quem considera trabalhar com o material em contextos criativos ou mesmo de obra.
Esculturas luminosas: quando a luz não ilumina, ela revela
No Povoa Lab, a luminária não nasce como luminária. Toda peça começa como escultura. “Tudo começa com uma escultura e depois ela pode se transformar em luminária. A princípio, não é pensada como um objeto de iluminação”, explica Fernanda.
Essa inversão de lógica muda completamente a relação entre luz e forma. Enquanto no design convencional de luminárias a eficiência luminosa é o ponto de partida, nas obras de Fernanda a luz assume outro papel: revelar camadas, amplificar texturas, tornar visíveis as estruturas internas das peças. “Ela permite tentar compreender a própria escultura e suas camadas”, afirma a artista.
O resultado prático para quem pensa em decoração de ambientes é significativo. Uma escultura luminosa em resina não funciona como iluminação de tarefa ou iluminação geral, ela atua como ponto focal, um objeto que transforma o canto onde está. A luz que emite é indireta, difusa, filtrada pelo próprio material. Em ambientes com paleta neutra e mobiliário clean, esse tipo de peça ganha ainda mais protagonismo, justamente porque concentra toda a complexidade visual em um único objeto.
A artista também explica por que não migrou para o vidro, material que frequentemente surge como sugestão. Além das limitações construtivas, o transporte de peças modulares em vidro representaria um desafio logístico que inviabilizaria a produção. A resina, nesse caso, é uma escolha técnica e não apenas estética.
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Vasos para orquídeas: quando a limitação do material vira projeto
Os vasos do Povoa Lab surgem de uma relação pessoal de Fernanda com as orquídeas e de uma descoberta técnica honesta: a resina impressa em camadas é porosa. “Eu já tinha tentado bem no começo fazer um vaso fechado desse material, mas ele é muito poroso. Por ser feito em camadas, ele acaba apresentando microporos e a água vaza”, conta.

A solução não foi contornar o problema, mas partir dele. A estrutura aberta da malha, que seria uma falha técnica em um vaso comum, torna-se a solução perfeita para orquídeas. Essas plantas precisam de substratos leves e arejados — geralmente cascas de pinus ou carvão vegetal, não terra convencional e suas raízes necessitam de ventilação constante para se desenvolver bem.
Assim, a ventilação das raízes, essencial para o cultivo de orquídeas, deixa de ser um requisito técnico e passa a ser o princípio formal da peça. O vaso nasce da planta, não ao contrário.
Fernanda é direta ao posicionar esses objetos dentro da sua produção: “Só tenho um vaso mesmo, que é o de orquídea, de resto, são adornos”. Os demais objetos da linha funcionam como bases luminosas, suportes para vasos de vidro, composições que exploram transparência, textura e estrutura no espaço.
Como integrar peças em resina na decoração de interiores
Do ponto de vista prático, peças como as do Povoa Lab pedem contexto. Colocadas em ambientes muito carregados visualmente, perdem força. O ideal é posicioná-las em superfícies neutras como o mármore branco, madeira clara ou concreto aparente, onde a translucidez da resina possa se destacar.
Para especialistas em decoração, o material já aparece como alternativa contemporânea às esculturas tradicionais. Diferente do vidro soprado, a resina permite formas mais complexas e modulares. Diferente do acrílico, carrega uma profundidade visual que muda conforme o ângulo e a incidência de luz natural ou artificial.
A iluminação indireta próxima à peça potencializa esse efeito. Temperaturas de cor entre 2700K e 3000K (faixas mais quentes e âmbar) realçam a tonalidade da resina e criam uma atmosfera mais acolhedora do que o branco frio, que tende a tornar a peça mais clínica.
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