Tem um momento específico em um jantar bem-sucedido: quando a sobremesa já acabou e ninguém levanta. As pessoas ficam ali, conversando, com o cálice de vinho ainda na mão. Essa permanência é em grande medida, resultado de um projeto de sala de jantar que foi pensado para isso.
Hoje, o ambiente deixou de ser apenas um cômodo funcional para se tornar um dos espaços mais reveladores de uma residência. A decoração da sala de jantar passou a carregar intenção, personalidade e, nas mãos de um bom arquiteto, uma capacidade quase narrativa de contar quem são os moradores.
“O ideal do acolher bem permanece, mas vem acompanhado pelo desejo de surpreender”, observa a arquiteta Ana Rozenblit, à frente do escritório Spaço Interior. É essa tensão entre acolhimento e identidade que define os projetos contemporâneos mais interessantes.
Sobre o especialista
Ana Venelli Rozenblit é arquiteta e fundadora do Spaço Interior Arquitetura, com atuação no Brasil e no exterior. Com mais de 30 anos de carreira, desenvolveu mais de 10 mil projetos residenciais, corporativos e comerciais, mantendo um modelo de trabalho autoral, que funciona como um ateliê de arquitetura.
Quando a sala de jantar vira palco da personalidade
O grande erro que se comete na concepção desse ambiente é tratá-lo como um espaço neutro, que precisa agradar a todos e, por isso, acaba não dizendo nada. A mesa, as cadeiras, o pendente escolhido, a marcenaria ao fundo: cada elemento tem o potencial de revelar algo genuíno sobre os moradores.
Para quem tem uma relação profunda com arte, por exemplo, a sala de jantar pode ser o espaço ideal para expor obras em grande formato. Não quadros decorativos genéricos, mas peças com identidade real, posicionadas de modo que a iluminação trabalhe a favor delas. Em um projeto da Spaço Interior, duas obras de fine art apoiadas diretamente no chão e quase da altura do pé-direito transformaram o ambiente.

“Fiquei apaixonada pela legitimidade que elas revelam”, conta Ana Rozenblit.
Da mesma forma, quem tem paixão por vinhos pode integrar uma adega climatizada próxima à mesa, com marcenaria sob medida que incorpore cristaleira para taças e copos. Esse gesto faz a conversa sobre vinho deixar de ser teoria: ela passa a acontecer com o contexto físico certo ao redor.
O peso das escolhas de mobiliário
A mesa de jantar define a dinâmica social do espaço antes mesmo de qualquer pessoa sentar. Uma mesa oval ou redonda, por exemplo, elimina hierarquias: não existe cabeceira, não existe ponta. Todo mundo está igualmente próximo, igualmente visível. Já uma mesa retangular alongada carrega uma vocação mais cerimonial, funciona bem em jantares formais, mas pode criar distância nas refeições do dia a dia.

O design contemporâneo do mobiliário também entra nessa equação. Mesas com formas orgânicas, cadeiras com estrutura curva, peças assinadas com identidade visual própria: todos esses elementos somam ao projeto sem precisar gritar. Em um dos projetos da Spaço Interior, uma mesa com tampo em desenho marmorizado foi combinada a cadeiras de estrutura curva para 12 pessoas. O resultado foi um ambiente que parece amplo e generoso, não porque tem muito espaço, mas porque cada peça foi dimensionada com precisão.
“Gosto do equilíbrio e da modernidade que o móvel imprime ao décor”, explica Ana Rozenblit sobre a escolha de uma mesa quadrada em laca brilhante preta, cujo acabamento funcionava em contraste direto com as cadeiras claras ao redor, criando aquele jogo visual que os japoneses chamariam de yin e yang.
Iluminação: o detalhe que muda tudo
O que realmente faz a diferença na sala de jantar e que raramente é levado a sério na fase de planejamento é a iluminação. Não basta ter um pendente bonito sobre a mesa. É preciso que ele esteja na altura certa, que a lâmpada escolhida projete a temperatura de cor adequada e que a distribuição da luz crie intimidade, e não exposição.

Fotos: Kadu Lopes
Pendentes sobre a mesa de jantar funcionam melhor quando instalados entre 70 e 80 centímetros do tampo, dependendo do pé-direito. Muito alto e a luz dispersa; muito baixo e atrapalha o campo de visão entre as pessoas sentadas. Em um dos projetos da Spaço Interior, três pendentes dourados alinhados no eixo central da mesa entregaram sofisticação sem sobrecarregar visualmente o ambiente.
Há também uma lógica espacial importante: o pendente funciona como âncora visual da mesa. Ele define onde o centro do ambiente está, mesmo que o espaço seja integrado à sala de estar ou à varanda. Não à toa, um volume metálico com aspecto quase moldado à mão, com dobras irregulares que reagem à luz de maneira instável, pode transformar um projeto correto em um projeto memorável.
A estratégia da posição: entre o living e a varanda gourmet
Não existe uma única posição correta para a mesa de jantar. O que existe é uma posição estratégica, que muda de acordo com a planta do apartamento e com a forma como os moradores vivem.
Em projetos onde a área social é totalmente integrada, posicionar a sala de jantar próxima à adega climatizada e com transição fluida para a varanda gourmet cria um circuito social que funciona para ocasiões diferentes. É a mesma mesa que atende um jantar informal no dia a dia e um evento mais elaborado no fim de semana.

Quando a sala de jantar vai para a varanda, a dinâmica muda completamente. O ambiente ganha luz natural durante o dia e uma atmosfera noturna que nenhum projeto de interiores consegue simular artificialmente.
“Eventos ganham a luz natural do dia ou o encanto do breu noturno, sem contar com o skyline a ser apreciado no caso de apartamentos em andares elevados”, aponta Ana Rozenblit.
Aliás, a privacidade também aumenta: a mesa não está em total destaque na área social, e isso muda a qualidade da conversa.
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Marcenaria sob medida: o que aparece e o que se esconde
A marcenaria sob medida para a sala de jantar tem dois papéis que precisam coexistir com elegância: o de armazenamento e o de composição visual. O grande erro aqui é tratar esses dois objetivos como separados.
Em um dos projetos da Spaço Interior, a parede lateral da sala de jantar foi inteiramente aproveitada com armários que acomodam o acervo de peças dos moradores. Dois detalhes merecem atenção: uma porta mimetizada que dá acesso à cozinha, praticamente invisível quando fechada, e um nicho central que funciona como apoio para dispor o menu antes de ser servido. Esse gesto, aparentemente pequeno, transforma o ritual do jantar.

Kadu Lopes
A mesma marcenaria pode integrar vidros refletivos ou reflecta para criar profundidade visual sem ocupar mais espaço físico. Em projetos onde o ambiente é menor, esse recurso faz diferença perceptível: o olho lê o ambiente como maior do que ele é, porque o reflexo prolonga o espaço.
Por que esse ambiente valoriza o imóvel
Existe um argumento prático que raramente aparece nas conversas sobre decoração da sala de jantar, mas que a arquitetura de interiores confirma: um projeto bem executado nesse cômodo impacta diretamente o valor venal do imóvel. “Uma vez que a sala de jantar é fundamental na composição da área social, um espaço bem produzido se destaca para um valor venal favorável a quem está vendendo”, explica Ana Rozenblit.
Isso porque, para quem visita um imóvel em busca de compra, a sala de jantar é o ambiente que mais facilmente comunica o padrão do projeto como um todo. A iluminação pendente bem posicionada, a marcenaria integrada, o piso que dialoga com o restante da área social: tudo isso compõe uma leitura imediata de qualidade.
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