Durante anos, a estante foi lentamente empurrada para fora dos projetos residenciais. O avanço dos painéis de TV, dos racks suspensos e da marcenaria centrada nas telas foi tomando conta das paredes das salas, e o móvel que antes reunia livros, memórias e objetos afetivos passou a ser tratado como excesso, algo que “pesava visualmente” ou “desorganizava” o ambiente.
Só que esse raciocínio começou a mostrar os seus limites. Apartamentos inteiros decorados em torno de uma televisão resultaram em ambientes funcionais, mas frios, que servem, mas não contam nada sobre quem mora neles. E é justamente contra esse vazio identitário que a estante contemporânea se posiciona hoje.
A virada não aconteceu de uma hora para outra. Ela acompanhou um movimento maior dentro do design de interiores: a busca por ambientes mais afetivos, personalizados e capazes de refletir o estilo de vida de quem os habita. Nesse contexto, a estante deixou de ser apenas um móvel de armazenamento e passou a exercer um papel que vai muito além da organização.
“Hoje a estante deixou de ser apenas um móvel de armazenamento para se tornar parte da arquitetura de interiores. Ela organiza, valoriza objetos afetivos e ainda contribui para a identidade visual da casa”, afirma a arquiteta Denise Barretto, à frente de seu escritório homônimo, onde costuma desenhar as estantes de forma personalizada em seus projetos.
Sobre o especialista
Denise Barretto formou-se em 1985 pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Mackenzie, com pós-graduação em Paisagismo pela FAU-USP. O atelier boutique que leva seu nome foi fundado em 97, elabora projetos em diversos segmentos, dentro de uma linha contemporânea. Originalidade é o compromisso que orienta os projetos, seu grande diferencial: a integração entre o espaço interno e paisagismo. Denise Barretto cria e acompanha pessoalmente propostas personalizadas de arquitetura, interiores, corporativo, comercial e escolas.
Quando o móvel vira elemento arquitetônico
O grande erro que ainda persiste em muitos projetos é tratar a estante como peça secundário, algo que entra no ambiente depois que tudo já foi decidido. Na prática, os melhores resultados acontecem quando ela é pensada junto com a planta, com o fluxo de luz e com a paleta de materiais do espaço.

O design contemporâneo das estantes se distancia completamente dos modelos tradicionais de madeira escura e nichos padronizados. As versões atuais trabalham com linhas retas e limpas, combinação de materiais como madeira, serralheria, vidro e pedras naturais, além de recursos como iluminação embutida nas prateleiras, que criam efeitos sofisticados, como a sensação de que os volumes flutuam.
“Essa mistura entrega uma riqueza visual ímpar e a certeza de peças exclusivas. A estante pode ser discreta ou protagonista, dependendo da proposta que idealizamos para o ambiente”, explica Denise Barretto. O mármore, segundo a arquiteta, está entre os materiais em alta nos projetos atuais, aparecendo como divisória entre módulos ou como detalhe de acabamento que eleva o nível estético do conjunto.
Aliás, a chegada dos televisores ultrafinos instalados diretamente na parede ou integrados à marcenaria resolveu uma equação que antes parecia incompatível: recuperar a protagonismo da estante sem abrir mão da tecnologia. Os dois elementos passaram a coexistir — e, em muitos projetos, a estante é justamente o que dá escala e contexto para a tela, impedindo que ela domine o ambiente de forma fria.
A estante como divisória e por que isso importa em plantas abertas
Uma das funções que mais cresce nos projetos atuais é o uso da estante como elemento de setorização. Em apartamentos com plantas integradas, separar visualmente a sala de estar da área de jantar, ou delimitar um home office sem fechar o espaço com uma parede, é um desafio recorrente.
A estante vazada resolve isso com elegância. Ela cria transições claras entre usos distintos sem bloquear a circulação de luz natural nem comprometer a sensação de amplitude, algo muito valorizado em imóveis compactos, onde cada metro quadrado precisa ser justificado.

“Gosto muito de adotar a estrutura das estantes como divisórias leves. Elas setorizam os ambientes ao mesmo tempo que mantêm a luminosidade e a sensação de integração, algo muito valorizado atualmente”, comenta a arquiteta Denise Barretto.
Dessa forma, o móvel passa a resolver dois problemas de uma vez: organização e zoneamento de ambientes, sem a brutalidade de uma parede e sem a fragilidade de um biombo decorativo. Há modelos que vão ainda mais longe, incorporando bancada de trabalho, espaço para bar, apoio para refeições rápidas e até portas camufladas que acessam áreas íntimas.
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Memória, gosto e identidade: o que nenhum painel de TV entrega
Há um componente da estante contemporânea que escapa das especificações técnicas e que talvez seja o mais relevante de todos: a capacidade de tornar uma casa reconhecível. Livros que foram lidos, obras adquiridas em viagens, objetos herdados, plantas, fotografias, tudo isso organizado com intenção em um móvel que convida ao olhar cria uma camada de significado que nenhuma outra peça de decoração de interiores consegue substituir.
Esse desejo de cercar-se de objetos com história não é nostalgia. É uma resposta ao excesso de estímulos digitais e à homogeneização dos ambientes que aconteceu quando o minimalismo foi aplicado sem critério — como se retirar qualquer traço pessoal do espaço fosse, automaticamente, um sinal de bom gosto.
“A casa precisa refletir quem mora nela e a estante oferece justamente essa possibilidade de expor memórias, gostos e referências de forma organizada e elegante”, observa Denise Barretto.
O resultado, quando bem executado, é um ambiente que faz sentido para quem está dentro — não apenas para quem fotografa. E essa distinção, no fundo, é o que separa um projeto com identidade de um ambiente apenas bem decorado.
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