Voltar ao mesmo lugar onde tudo começou não é nostalgia. É uma declaração. Foi exatamente isso que a Moooi fez na Milan Design Week 2026 ao ocupar novamente o Superstudio Più, o espaço que a marca holandesa escolheu para sua primeira participação no evento, décadas atrás. A decisão de retornar ao ponto de origem não é detalhe menor — é o argumento central de toda a apresentação comemorativa de 25 anos da marca.
A estética que conduz o projeto é a prata. Não como ornamento, mas como linguagem. Superfícies reflexivas cobrem o ambiente e multiplicam a luz de maneira que cada ângulo oferece uma leitura diferente do espaço. O resultado é uma instalação imersiva que oscila entre o onírico e o futurista, criando aquela atmosfera rara em feiras de design: a de que o visitante entrou em outro lugar.
Uma cenografia inspirada em movimento e gravidade
A direção conceitual da instalação foi influenciada pelas investigações do coreógrafo Yoann Bourgeois sobre equilíbrio e gravidade. Essa referência não aparece de forma literal, mas estrutura a experiência visual: há uma tensão constante entre o que parece suspenso e o que toca o chão, entre o que reflete e o que absorve. O movimento, mesmo que sugerido, é parte ativa da composição.

Dessa forma, a cenografia funciona menos como vitrine de produtos e mais como narrativa espacial. As peças são apresentadas dentro de um contexto que as contextualiza antes mesmo de serem analisadas individualmente. Aliás, esse é um dos traços mais reconhecíveis do DNA da Moooi desde sua fundação: objetos que só fazem sentido pleno quando inseridos em um ambiente pensado para eles.
Os lançamentos que definem a nova coleção
Entre os destaques da coleção apresentada na MDW 2026, o sofá modular Peaks Sofa, assinado por Yves Béhar, chama atenção pelo desenho que equilibra volume e precisão. A configuração modular responde a uma demanda atual do design de interiores: móveis que se adaptam a diferentes layouts sem perder coesão estética.

Outro destaque é a coleção de tapetes Future Fossils, de Kilian Vos, que cruza técnicas de CGI com design têxtil. O resultado são peças que parecem capturar formas orgânicas congeladas no tempo — uma referência direta ao título da coleção.
A textura é densa, mas a paleta é contida, o que facilita a inserção em projetos contemporâneos sem que o tapete dispute protagonismo com outros elementos do espaço.

Nos previews, duas luminárias merecem atenção. A Urchina Light, de Roderick Vos, explora formas orgânicas que remetem a estruturas marinhas, com uma iluminação que se espalha de forma difusa pelo ambiente. Já a Push Light, de Paul Cocksedge, aposta em uma abordagem mais minimalista, com interação direta como parte do conceito. Além disso, o sistema de iluminação arquitetônica Powerline, desenvolvido por Marcel Wanders em parceria com a Intra Lighting, apresenta uma solução técnica que integra design e infraestrutura de forma mais fluida do que os sistemas convencionais de trilho.
Reedições que ganham novos materiais e sentidos
Uma das decisões mais interessantes da apresentação foi revisitar peças do acervo com olhar renovado. O Paper Chandelier 2.0, do Studio Job, reinterpreta um dos clássicos da marca com acabamentos atualizados. Já o projeto Common Comrades, assinado pelo escritório Neri&Hu, aparece agora em bambu fumê, material que responde ao interesse crescente do mercado por acabamentos naturais com caráter visual mais forte.

As variações de Meshmatics Wall/Ceiling, de Rick Tegelaar, ampliam o repertório de aplicação de uma peça que já havia se estabelecido como referência em iluminação decorativa para teto e parede. A possibilidade de explorar configurações diferentes — tanto em termos de tamanho quanto de composição — torna o produto mais versátil para projetos de diferentes escalas.
O projeto Moooi Weer – Tin Age merece destaque à parte. A proposta revisita peças do acervo da marca com um acabamento metálico fosco inspirado no estanho, criando uma camada de releitura que conecta o histórico da coleção ao tom visual da instalação principal. É uma forma de fazer o tempo trabalhar a favor do design, em vez de apagá-lo.
Instalações que vão além do produto
Dois projetos especiais ampliam o escopo da participação da Moooi para além dos objetos comercializáveis. A instalação cinética Pino Tree, de Andrés Reisinger, traz o movimento como elemento central, com estruturas que respondem ao ambiente de maneira quase orgânica. Reisinger, que transita entre o digital e o físico com consistência, entrega aqui uma peça que funciona como experiência autônoma dentro da mostra.

A 25th Anniversary Tapestry, criada por Mart Veldhuis, traduz visualmente o universo da marca em formato de tapeçaria comemorativa. O objeto funciona como síntese — não apenas dos 25 anos de história, mas do vocabulário visual que a Moooi construiu ao longo do tempo: referências ao fantástico, ao artesanal e ao tecnológico convivendo no mesmo plano.
Revestimentos e superfícies que complementam o projeto
A apresentação também incluiu a coleção de revestimentos Monumental Moments, desenvolvida pela Moooi Wallcovering em parceria com Arte, e a superfície cerâmica Sandy Silver, criada em colaboração com o Grupo ABK. Esses materiais dialogam diretamente com a estética prateada da instalação e ampliam o portfólio da marca para além do mobiliário e da iluminação — áreas onde a Moooi já tem presença consolidada.
A escolha de incluir revestimentos cerâmicos e papéis de parede em uma apresentação comemorativa não é casual. Ela sinaliza que a marca entende o ambiente como um todo, não apenas como suporte para objetos. Dessa forma, a decoração de interiores passa a ser abordada de maneira mais completa: do piso ao teto, dos móveis às superfícies.





