Tem elementos arquitetônicos que desaparecem das plantas sem que ninguém perceba exatamente quando isso aconteceu. De repente, as casas ficaram mais parecidas entre si, as fachadas perderam personalidade e os interiores ganharam aquela uniformidade que pouco diz sobre quem mora ali. O piso de caquinho, o cobogó e o azulejo português são três desses elementos, que saíram de cena aos poucos, substituídos por materiais industrializados e soluções de catálogo.
Mas a arquitetura brasileira contemporânea está olhando para trás e percebendo o quanto foi deixado para trás sem necessidade. Embora possa ser visto por alguns como nostalgia vazia, cada um desses elementos carrega uma lógica construtiva muito clara, pensada para o clima, para o modo de vida e para a cultura do país. Por isso, resgatá-los, hoje, é também uma escolha técnica.
O piso de caquinho
O piso de caquinho, também chamado de piso de pedaços ou piso de cacos cerâmicos, foi por décadas uma das soluções mais inteligentes e democráticas da construção brasileira. Feito a partir de retalhos de cerâmica, azulejo ou porcelana fixados com argamassa e depois polidos, ele nascia do reaproveitamento e entregava um resultado absolutamente único: nenhum piso de caquinho era igual ao outro.

A partir das sobras de obra, que seriam descartadas, se transformavam em revestimento de alta resistência. A composição final, com peças irregulares encaixadas como um mosaico, criava uma superfície extremamente densa, difícil de riscar e fácil de limpar. Além disso, o aspecto visual tinha uma riqueza que nenhuma peça de porcelanato padronizado consegue reproduzir, justamente porque a irregularidade era o ponto.
O grande erro de quem abandonou o caquinho foi confundi-lo com algo ultrapassado só porque era artesanal. Na prática, a técnica é mais resiliente do que muitos revestimentos industriais, especialmente em áreas de alto tráfego, como corredores, áreas externas e cozinhas. A manutenção, quando bem impermeabilizado, é simples, basta limpeza com água e sabão neutro. O rejunte epóxi, aplicado corretamente, praticamente elimina o problema de infiltração entre as peças.

Nos projetos atuais, o caquinho vem sendo reintroduzido tanto em reformas quanto em construções novas, especialmente em projetos com estética artesanal, décor rústico contemporâneo e propostas que valorizam o reaproveitamento de materiais. Em varandas, quintais e até banheiros, ele funciona como ponto focal, o tipo de detalhe que as pessoas fotografam quando visitam uma casa.
O azulejo português
Dificilmente outro elemento da arquitetura luso-brasileira carrega tanto peso histórico quanto o azulejo português. Presente no Brasil desde o período colonial, ele atravessou séculos e ainda mantém uma capacidade decorativa que poucos revestimentos conseguem alcançar: transforma uma parede comum em narrativa visual.

A origem é ibérica, mas a adaptação ao ambiente brasileiro foi total. Os padrões geométricos em azul e branco, os motivos florais e as composições simétricas tornaram-se parte da identidade de fachadas, igrejas, cozinhas e banheiros em todo o país. Além de super funcional, o material resiste à umidade, regula levemente a temperatura superficial da parede e tem uma durabilidade que desafia décadas sem perder o acabamento.
O problema não era o azulejo em si, mas a forma como o mercado foi empurrando alternativas mais rápidas de instalar e mais baratas de produzir. O porcelanato retificado, os painéis de PVC e as pinturas epóxi foram tomando espaço nas obras por uma questão de custo e agilidade. Aliás, em termos de longevidade, o azulejo português, quando bem assentado, supera a maioria dessas alternativas sem esforço.

O que a decoração contemporânea está redescobr nesse elemento é exatamente o que ele sempre ofereceu: singularidade. Um painel de azulejos portugueses numa área molhada não é apenas revestimento, é uma escolha estética que posiciona o ambiente fora do catálogo padrão. E o mercado nacional já responde a essa demanda com manufaturas que produzem peças inspiradas nos padrões históricos com adaptações para o gosto atual, inclusive com paletas além do azul tradicional, como o verde musgo, o terracota e o preto.
A aplicação mais contemporânea foge da cobertura total de parede. Hoje, o azulejo português aparece em meias paredes, como painel único atrás de uma pia, no rodapé de uma cozinha integrada ou como revestimento externo de uma coluna. Dessa forma, ele dialoga com materiais como cimento queimado, madeira natural e pedra, sem competi, apenas complementar.
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O cobogó
O cobogó é, provavelmente, o elemento mais subestimado da lista. E também o mais inteligente do ponto de vista construtivo. Criado no Brasil na década de 1920, em Recife, por três engenheiros cujas iniciais deram nome à peça (Co-bo-gó), ele surgiu como resposta direta ao clima tropical: uma solução que permitia ventilação cruzada e iluminação natural difusa sem comprometer a privacidade nem expor o ambiente ao sol direto.

A geometria das peças, com aberturas calculadas, funciona como um filtro. O vento entra, o calor não acumula, a luz se distribui de forma suave. Num país em que o ar-condicionado virou padrão e o consumo energético residencial só cresce, o cobogó entrega exatamente o que qualquer projeto bioclimático sério busca: conforto térmico passivo, sem custo de operação.
O grande erro foi tratá-lo como elemento datado, associado apenas à arquitetura dos anos 60 e 70. Quando o mercado de revestimentos e elementos construtivos modernizou as opções, o cobogó foi empurrado para o esquecimento junto com uma série de soluções que simplesmente funcionavam. Hoje, projetos que levam a sério o desempenho térmico e a eficiência energética estão resgatando o cobogó, não como referência vintage, mas como escolha técnica consciente.

A variedade de formatos disponíveis no mercado atual é muito maior do que a maioria imagina. Além do modelo clássico em cerâmica branca, existem peças em concreto aparente, terracota, madeira e até versões produzidas em impressão 3D com polímeros de alta resistência. Os padrões geométricos se multiplicaram, e hoje o cobogó aparece em muxarabis, biombos internos, fachadas ventiladas, jardins verticais e até como divisórias entre ambientes em apartamentos integrados.
Numa varanda, por exemplo, o cobogó resolve três problemas de uma vez: delimita o espaço sem fechar completamente, protege da incidência solar direta no período da tarde e ainda entrega textura visual à composição. Nenhuma divisória de vidro ou painel de MDF faz isso com a mesma eficiência.






