A ideia de que sustentabilidade e alto padrão caminham em direções opostas dentro do design de interiores brasileiro vem sendo desafiada com cada vez mais força. A prova mais recente dessa virada chegou durante a 22ª edição da SP-Arte, quando o escritório Suite apresentou ao mercado a coleção In.verso — uma linha de móveis autorais desenvolvida a partir de plástico reciclado triturado combinado com fragmentos de pedra natural provenientes de descartes industriais.
O resultado é uma série de 15 peças únicas — cadeiras, mesas, luminárias e espelhos, que carregam na superfície uma tensão visual e tátil deliberada. À primeira vista, o material provoca dúvida: é pedra ou é plástico? Essa ambiguidade não é um efeito colateral do processo. É exatamente o ponto.
O ponto de partida: uma placa que quase passou despercebida
A origem da coleção tem um caráter quase acidental, do tipo que só acontece quando um escritório está genuinamente aberto ao experimento. Os arquitetos Carolina Mauro, Daniela Frugiuele, Filipe Troncon e Luiza Monari, à frente do Suite, já carregavam uma inquietação sobre como incorporar a sustentabilidade de forma concreta no design de alto padrão, sem que o resultado parecesse uma concessão estética. A virada veio quando um parceiro apresentou ao estúdio uma placa de plástico reciclado triturado. A reação inicial foi de reserva.

“Era interessante, mas esteticamente não nos chamou muita atenção. Mesmo assim, ficamos com ela. Na semana seguinte, ele voltou com uma mesinha. Na outra, com uma peça tingida”, contam os profissionais.
Esse encadeamento de encontros abriu uma janela de possibilidades que o escritório decidiu explorar a fundo. O que se seguiu foram meses de testes, erros e descobertas — um processo coletivo e experimental que foi moldando, aos poucos, a identidade visual da coleção.
Pigmentos naturais como variável de projeto
O diferencial técnico da In.verso está na forma como o Suite conduziu os estudos de pigmentação. A incorporação de elementos naturais ao plástico reciclado — como açafrão, pimenta e diferentes tipos de argila — não é apenas uma escolha estética. Cada ingrediente altera de maneira distinta a cor, a textura e a porosidade da superfície final, tornando cada peça única e irreproduzível.
Essa variação intrínseca ao processo é, ao mesmo tempo, um desafio de produção e um atributo de valor. No design autoral de alto padrão, a unicidade é um critério determinante e aqui ela é garantida pela própria natureza do material, não por um artifício decorativo. Aliás, a mistura entre o fragmento de pedra natural descartado e o plástico triturado cria contrastes táteis que nenhum acabamento convencional conseguiria reproduzir.
Engenharia a serviço da forma
Trabalhar com materiais de densidades e comportamentos distintos exige mais do que sensibilidade criativa, exige uma solução estrutural. Algumas peças da coleção chegam a ultrapassar 50 quilos, o que demandou o desenvolvimento de uma engenharia específica capaz de sustentar os elementos sem comprometer a unidade visual do conjunto.

“Tivemos que desenvolver uma engenharia capaz de sustentar elementos que chegam a mais de cinquenta quilos, mantendo uma continuidade visual entre artigos com densidades e comportamentos distintos, sem que um se sobreponha ao outro”, explicam Carolina Mauro, Daniela Frugiuele, Filipe Troncon e Luiza Monari.
Esse cuidado técnico é o que separa uma peça experimental de uma peça de design funcional. No contexto de um projeto de interiores residencial ou comercial, móveis com esse nível de acabamento precisam responder tanto à estética quanto ao uso e a coleção foi desenvolvida com essa dupla exigência em mente.
O plástico como narrativa de interiores
Há uma camada conceitual na In.verso que vai além da escolha de materiais. O plástico reciclado, que por décadas funcionou como símbolo de praticidade e produção em massa, é reposicionado aqui como elemento de reflexão. Nas superfícies das peças, ele não esconde sua origem — ao contrário, ela é parte da leitura visual do objeto.
Dentro de um projeto de decoração contemporâneo, essa escolha tem peso. Peças que carregam uma narrativa própria funcionam como pontos de ancoragem em ambientes que valorizam autenticidade. Não é preciso explicar de onde vieram a textura e a composição comunicam por conta própria.
“O projeto revelou que aquela bifurcação que parecia inevitável, entre sustentabilidade e elegância, na verdade não precisa existir. Essa coleção mostrou que é possível operar nos dois lugares simultaneamente e que o resultado pode ser ainda mais rico justamente pela tensão entre eles”, afirmam os arquitetos do Suite.






