Quem caminha pelo Centro de Curitiba, seja no Calçadão da Rua XV, nas imediações do Centro Cívico ou diante do Teatro Guaíra, está, sem saber, percorrendo um museu a céu aberto. Boa parte desse repertório urbano tem autoria conhecida. Os arquitetos Rubens Meister (1922–2009) e Manoel Coelho (1940–2021) assinam um conjunto de obras que ajudou a definir o que é, visualmente, a capital paranaense.
Agora, mais de mil projetos arquitetônicos desses dois profissionais foram doados à Casa da Memória da Fundação Cultural de Curitiba, onde passarão por processo de higienização, catalogação e digitalização antes de serem disponibilizados para consulta de estudantes, pesquisadores e do público em geral. As duas novas coleções integram o acervo do Patrimônio Histórico de Curitiba e reúnem plantas, desenhos técnicos e registros fotográficos de edificações públicas e privadas — algumas ainda ativas no cotidiano da cidade, outras presentes apenas na memória de quem a conheceu
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“A cidade recebeu um presente raro, que será conservado como legado histórico para as futuras gerações”, destaca Marino Galvão Junior, presidente da Fundação Cultural de Curitiba.
Rubens Meister e a chegada do modernismo ao Paraná
Para compreender a arquitetura moderna de Curitiba, é difícil não passar por Rubens Meister. Formado em Engenharia pela Universidade do Paraná — a atual UFPR — em 1943, ele construiu ao longo de décadas uma trajetória que soma cerca de 450 projetos, distribuídos pelo Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo.

O grande erro de quem fala sobre Meister é tratá-lo como um nome do passado distante. Suas obras estão presentes no dia a dia de quem vive em Curitiba: o Teatro Guaíra, a Rodoferroviária de Curitiba, o Terminal Guadalupe, o Teatro da Reitoria, o Palácio 29 de Março — sede da Prefeitura — e o Centro Politécnico da UFPR são assinaturas dele. Além desses, há ainda o Palácio Avenida, edifício histórico no Calçadão da Rua XV de Novembro que Meister requalificou, e outros marcos como os edifícios Asa, Barão do Rio Branco, o prédio da Fiep/Sesi no Centro Cívico e o da Caixa Econômica Federal na esquina da Rua José Loureiro com a Marechal Floriano Peixoto.
O acervo que chega à Casa da Memória inclui também projetos desenvolvidos fora de Curitiba, com destaque para os cinemas de Castro e de Mafra — cidades do Paraná e de Santa Catarina, respectivamente. Essa parte do material revela uma especialidade pouco comentada do arquiteto: o domínio sobre cineteatros e o estudo de acústica arquitetônica, uma área técnica exigente que vai muito além da estética.
“Rubens Meister é um dos nomes mais importantes da arquitetura paranaense. Foi ele quem introduziu o modernismo em Curitiba e no estado de forma tão produtiva”, afirma o arquiteto Fábio Domingos Batista, pesquisador da obra de Meister e responsável por intermediar, junto às filhas dos dois arquitetos, a doação dos materiais à Fundação.
Batista é coautor do livro Rubens Meister: projeto e obra, escrito com Deborah Carvalho e Paulo Chiesa, publicado com apoio da FCC pelo Programa de Apoio, Fomento e Incentivo à Cultura.
O que o acervo arquitetônico agora preservado também evidencia é a diversidade tipológica de Meister: além de equipamentos culturais e edifícios institucionais, ele projetou igrejas — como a Bom Pastor, no bairro Vista Alegre, e a dos Peregrinos, no Campo Comprido —, além de obras privadas que se espalharam pelo cotidiano dos curitibanos sem nunca perder coerência de linguagem. Essa consistência ao longo de décadas é o que sustenta sua relevância histórica.
Manoel Coelho e a construção da identidade visual de Curitiba
Manoel Coelho representa outra dimensão da arquitetura urbana curitibana, aquela que não se limita aos edifícios, mas que pensa a cidade como sistema. Formado na primeira turma do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPR, em 1967, ele também construiu uma trajetória acadêmica sólida, atuando como professor e coordenador na mesma instituição onde se graduou.
Na prática profissional, o destaque de Coelho está nos projetos voltados ao poder público, especialmente nas áreas de identidade visual, sinalização urbana e mobiliário urbano — três campos que raramente aparecem nas discussões sobre arquitetura, mas que determinam a experiência cotidiana de quem usa uma cidade. É esse conjunto de trabalhos que ajudou a organizar a comunicação visual dos espaços públicos de Curitiba, conferindo à cidade uma coesão estética reconhecível.

O acervo de Coelho, assim como o de Meister, chega à Casa da Memória por meio da intermediação de Fábio Domingos Batista, que coordenou junto às famílias o processo de doação. “Ele se especializou em cineteatros e também estudou acústica”, ressalta Batista ao descrever a trajetória de Meister, mas o mesmo rigor técnico que define um profissional define o outro: ambos trabalharam com precisão em áreas onde a maioria das pessoas sequer percebe a existência de um projeto.
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O que significa preservar esse tipo de acervo
Plantas, croquis e fotografias técnicas raramente chegam ao grande público. Ficam em gavetas, em escritórios fechados ou simplesmente se perdem com o tempo. A doação do material de Meister e Coelho à Fundação Cultural de Curitiba é, por isso, um movimento com peso real para a preservação da memória arquitetônica brasileira.
A equipe de documentação histórica da FCC está higienizando o material antes da catalogação e digitalização. Uma parte dos projetos de Rubens Meister foi destinada ao Museu Oscar Niemeyer, mas a Casa da Memória mantém cópias físicas e digitais, somadas às peças originais das demais coleções. Dessa forma, o acesso ao material ficará garantido tanto para pesquisadores especializados quanto para quem simplesmente quer entender melhor a cidade em que vive.
O que esse acervo oferece vai além da história. Para estudantes de arquitetura e urbanismo, para profissionais de design de interiores e para qualquer pessoa interessada em patrimônio histórico e cultural, é uma oportunidade de observar como se pensa um projeto de verdade — da planta ao detalhe construtivo, do esboço à execução. Isso, em um período em que a cultura visual de projeto é cada vez mais rasa, tem valor formativo inegável.
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