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Construção civil muda de rota: acordos globais e novas práticas que estão descarbonizando obras e cidades

Do canteiro de obras ao planejamento urbano, a descarbonização deixou de ser tendência e passou a ser exigência — com metas, acordos internacionais e impacto direto no modo de projetar e construir

Por Cláudio Filla
28 de março de 2026
em Noticias
Construção civil muda de rota: acordos globais e novas práticas que estão descarbonizando obras e cidades

O setor que mais consome recursos naturais no planeta está sendo pressionado a mudar e a resposta começa a aparecer tanto nos canteiros de obra quanto nas mesas de negociação internacionais. A construção civil sustentável não é mais pauta de evento especializado. Tornou-se meta de governo, critério de financiamento e, cada vez mais, uma exigência do próprio mercado imobiliário.

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O ponto de partida dessa transformação tem endereço e data: Paris, março de 2024. Foi lá que cerca de 70 países assinaram a Declaração de Chaillot, um acordo internacional coordenado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) que estabelece metas concretas para descarbonizar o setor de edificações ao longo das próximas décadas. O documento não é apenas simbólico. Ele orienta políticas públicas, atrai capital privado e começa a moldar o que significa construir bem no século XXI.

O contexto que gerou esse movimento é urgente. Relatório divulgado pelo próprio PNUMA aponta que edifícios e obras de infraestrutura respondem por mais de um quinto das emissões globais de gases de efeito estufa. Além disso, a demanda global por matérias-primas deve dobrar até 2060, ao mesmo tempo em que 68% da população mundial passará a viver em áreas urbanas até 2050. Ou seja: construir mais da mesma forma não é uma opção viável.

O concreto no centro do debate

O cimento Portland, principal componente do concreto convencional, é um dos materiais mais consumidos no mundo e também um dos mais intensivos em energia para ser produzido. Cada tonelada de cimento gera, em média, entre 600 e 900 kg de CO₂ e o volume de obra global não para de crescer. Esse dado coloca o material diretamente no centro do debate sobre emissões na construção civil, e explica por que tantos projetos e pesquisas buscam alternativas: do concreto de baixo carbono ao uso de materiais reciclados e naturais, como bambu, terra crua e madeira de reflorestamento certificada.

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Mas a questão não se resume ao que se usa para erguer as paredes. O arquiteto belga Laurent Troost, mestre em Arquitetura e Urbanismo pelo Instituto Victor Horta, em Bruxelas, chama a atenção para um aspecto frequentemente subestimado nos projetos: “A construção de um prédio representa apenas 20% do consumo energético da sua vida útil. O resto, 80%, é de manutenção, ou seja, o uso do prédio.”

Isso muda o olhar sobre o que é, de fato, uma construção eficiente. Pensar em ventilação cruzada, iluminação natural, isolamento térmico e eficiência energética desde a fase de projeto deixa de ser detalhe estético e passa a ser decisão estratégica — com impacto real no consumo ao longo de décadas. O grande erro em muitos projetos ainda é tratar o desempenho do edifício como questão secundária, resolvida no acabamento ou em reformas futuras.

Sustentabilidade e retorno financeiro: a equação que o mercado passou a calcular

Há alguns anos, falar em construção verde no Brasil soava como nicho para projetos de alto padrão ou iniciativas isoladas. Esse cenário mudou. O mercado imobiliário passou a enxergar a eficiência energética e as certificações ambientais — como LEED e AQUA-HQE — como diferenciais competitivos que impactam diretamente o valor do imóvel e a velocidade de venda ou locação.

Laurent Troost reforça que, no contexto do mercado imobiliário, a decisão sustentável segue uma lógica prática: “Quando a gente trabalha para o mercado imobiliário, o tema sempre vai ser entender se certos custos de construção têm retorno financeiro.” Essa mudança de perspectiva, do discurso ambiental para o cálculo de viabilidade, é justamente o que acelerou a adoção de práticas mais sustentáveis em empreendimentos de diferentes escalas.

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  • Veja também: Campo Largo recebe a Hometree e entra no mapa das cidades com acesso a projetos de automação de alto padrão

O papel do financiamento verde na transformação do setor

Acordos como a Declaração de Chaillot têm efeito além do campo diplomático. Eles criam um ambiente favorável para que bancos e instituições financeiras direcionem recursos para projetos de baixo carbono, muitas vezes com condições mais acessíveis do que as linhas convencionais.

Marcus Nakagawa, presidente da Associação Brasileira dos Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável (ABRAPS), explica o mecanismo: “Os compromissos internacionais são fundamentais para que se alastre um novo modelo de pensamento de direcionamento e, principalmente, para que o capital possa ser inserido nesse tipo de investimento.”

Nakagawa ainda destaca que os bancos “cada vez mais têm linhas de crédito de investimentos verdes, sustentáveis, e com baixo carbono ou zero carbono”, com taxas de juros inferiores às praticadas para empreendimentos convencionais. Dessa forma, o que começa como diretriz em fórum internacional tende a se transformar em regulação nacional e, depois, em critério de acesso a crédito — pressionando toda a cadeia produtiva a se adaptar.

O que está mudando na construção brasileira

No Brasil, a transformação acontece em diferentes frentes. Uma das mais visíveis é a revisão do programa Minha Casa, Minha Vida, que passa a incorporar o uso de energia limpa e critérios de resiliência climática nas obras financiadas. A proposta reconhece que habitação popular e construção sustentável não são conceitos excludentes e que justamente as populações mais vulneráveis são as mais afetadas pelos impactos das mudanças climáticas.

Aliás, o próprio modelo de urbanização está sendo questionado. Cidades que cresceram de forma desordenada, com pouca arborização, impermeabilização excessiva do solo e dependência de transporte individual, enfrentam hoje consequências diretas: enchentes, ilhas de calor e colapso de infraestrutura em eventos extremos. O ODS 11 da ONU, que prevê cidades mais sustentáveis e resilientes até 2030, coloca pressão sobre municípios para que revisem não apenas como se constrói, mas onde e para quem.

Nesse contexto, materiais alternativos, sistemas de captação de água da chuva, telhados verdes, fachadas ventiladas e o uso de fontes de energia renovável deixaram de ser diferenciais de alto padrão e passam a ser incorporados em projetos de diferentes portes. O que muda é a percepção: construir com menor impacto ambiental não significa abrir mão de qualidade — significa repensar o que qualidade significa quando o edifício precisa funcionar bem por décadas.

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    Cláudio Filla

    Cláudio P. Filla é comunicador social e especialista em mídias digitais, com mais de 11 anos de atuação na curadoria de tendências para o mercado de arquitetura e decoração. Como editor-chefe do Enfeite Decora, Cláudio lidera um conselho editorial composto por arquitetos, designers de interiores e paisagistas registrados (CAU/ABD), garantindo que cada artigo combine inspiração visual com rigor técnico e normativo. Sua missão é traduzir o complexo universo da construção e do design em soluções práticas, sustentáveis e acessíveis, sempre sob o respaldo de profissionais renomados do setor brasileiro.

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