Antoni Gaudí não se limitou às fachadas ondulantes que marcaram Barcelona. O arquiteto catalão entendia que design de interiores e arquitetura formam um corpo único, e por isso desenhou cada móvel como extensão orgânica de seus edifícios. Agora, a companhia espanhola BD Barcelona traz de volta 18 dessas criações em réplicas exatas, todas acompanhadas de certificado de autenticidade que comprova a fidelidade ao projeto original.
As peças fazem parte do acervo de duas construções emblemáticas: a Casa Calvet e a Casa Batlló. Diferente de reproduções comerciais genéricas, cada móvel passa por produção artesanal em carvalho maciço envernizado, respeitando as técnicas que Gaudí aplicava no início do século XX.
Cadeiras e bancos que nascem da anatomia humana
Para a Casa Batlló, Gaudí desenvolveu assentos que fogem completamente do padrão retilíneo. As cadeiras da sala de jantar trazem encostos alongados que acompanham a curvatura natural da coluna, enquanto o assento curvo distribui o peso sem criar pontos de pressão.

“O mobiliário de Gaudí é funcional, estrutural e expressivo, com uma modernidade enraizada em formas que nascem do uso e do corpo humano, e não do ornamento”, descreve a BD Barcelona em seu site oficial.

O banco Batlló foi pensado para dois ocupantes, mas com um detalhe que revela a atenção do arquiteto ao comportamento social: um apoio de braço central direciona cada assento para lados opostos, permitindo conversas mais íntimas sem que as pessoas fiquem exatamente frente a frente. Esse tipo de solução mostra como Gaudí equilibrava estética e funcionalidade sem fazer concessões.
Casa Calvet: do encosto em coração às maçanetas moldadas à mão
A Casa Calvet recebeu um conjunto ainda mais diversificado. A poltrona Calvet é resultado da união de cinco elementos estruturais entalhados que formam um corpo robusto: o “pescoço” da peça, os braços arqueados e um encosto em formato de coração que se ajusta perfeitamente às costas. Cada curva foi pensada para oferecer apoio sem rigidez, princípio que Gaudí aplicava tanto em cadeiras quanto em fachadas.

Além dos assentos, o arquiteto desenhou fechaduras, puxadores e maçanetas que carregam um detalhe técnico fascinante: ele modelava as peças pressionando argila com as próprias mãos, criando impressões digitais que depois eram fundidas em latão polido. O resultado são ferragens ergonômicas que se encaixam naturalmente na palma da mão, com relevos orgânicos que eliminam qualquer artificialidade. Essas maçanetas estão à venda por valores entre € 160 e € 2,6 mil (aproximadamente R$ 974 e R$ 16,3 mil na cotação atual).
O banco Calvet, por sua vez, comporta até três pessoas e apresenta entalhes ornamentais que dialogam com os detalhes da carpintaria da casa. As curvas não são apenas decorativas: elas reforçam a estrutura e criam uma linguagem visual que conecta o móvel ao espaço arquitetônico.
Espelho dourado que contrasta com a sobriedade da fachada
Um dos destaques da coleção é o espelho Calvet, que funciona como contraponto à fachada discreta da casa. Enquanto o exterior adota uma postura mais contida, o espelho traz moldura dourada aplicada com folha de ouro e superfície moldada manualmente. Esse contraste revela a estratégia de Gaudí: reservar a exuberância para o interior, transformando a experiência de morar em um exercício de descoberta gradual.

A aplicação de folha de ouro não é meramente decorativa. O brilho metálico multiplica a luz natural e amplia visualmente os ambientes, recurso fundamental em construções do início do século XX, quando a iluminação artificial ainda era limitada. Gaudí compreendia que materiais refletivos agregam funcionalidade sem depender de tecnologia externa.
Produção artesanal garante fidelidade ao desenho original
Cada móvel da coleção passa por fabricação artesanal que replica fielmente os processos utilizados por Gaudí. O carvalho maciço é trabalhado à mão, com acabamentos em verniz que protegem a madeira sem alterar sua textura natural. A BD Barcelona não revela os preços completos da linha de mobiliários no site, mantendo apenas os valores das ferragens acessíveis para consulta.
Todas as peças são acompanhadas de certificado de autenticidade, documento que atesta a correspondência exata com os móveis originais preservados no Museu Gaudí, no Parque Güell. Esse cuidado transforma cada item em peça de colecionador, destinada a quem entende design de interiores como investimento de longo prazo.
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A lógica estrutural aplicada ao mobiliário
Gaudí aplicava aos móveis os mesmos princípios que utilizava em suas construções: curvas catenárias, distribuição orgânica de peso e materiais que trabalham a favor da forma. “Situado entre objeto e escultura, o mobiliário de Gaudí é funcional, estrutural e expressivo”, reforça a BD Barcelona. Não se trata de cadeiras com curvas aleatórias, mas de estruturas calculadas para suportar carga de maneira eficiente enquanto criam uma linguagem visual coesa.

Os bancos e cadeiras da Casa Batlló e da Casa Calvet funcionam como estudos tridimensionais de formas que Gaudí desenvolveria em escala arquitetônica. O encosto alongado, os braços arqueados e os assentos curvos antecipam soluções que só seriam amplamente adotadas décadas depois, quando o design moderno começou a questionar a rigidez dos móveis industriais.
Acessibilidade relativa e público-alvo definido
A reedição da BD Barcelona não se posiciona como mobiliário de mercado amplo. As maçanetas e puxadores já indicam o padrão de investimento necessário, com valores que ultrapassam R$ 15 mil. Os móveis completos seguem essa mesma faixa, destinados a colecionadores, museus e residências de alto padrão que buscam peças com relevância histórica comprovada.
Essa estratégia faz sentido quando se considera que os originais estão protegidos em museu. A reedição permite que o design de Gaudí saia do espaço expositivo e volte a cumprir sua função primeira: ser usado. A diferença está no público que terá acesso a esse uso, restrito a quem pode investir em design autoral de valor histórico consolidado.





