Trocar o elevador apertado, os corredores estreitos e a vista limitada por um jardim próprio não é apenas uma mudança de endereço. É uma mudança de perspectiva. Esta casa de 250 m², projetada em Novo Hamburgo (RS) pela arquiteta Andrea Pedrotti Bonotto, nasce justamente desse desejo: abandonar a sensação de clausura acumulada por décadas em um apartamento e abraçar a amplitude — física e emocional — de uma residência pensada para o presente e para o futuro.
Aqui, o ponto de partida não foi a estética, mas a autonomia. O conceito de Ageing in Place norteou cada decisão, provando que envelhecer em casa não precisa significar adaptação improvisada ou aparência clínica. Pelo contrário, o projeto demonstra que arquitetura residencial, quando bem planejada, pode fortalecer autoestima, independência e dignidade.
Neuroarquitetura aplicada ao cotidiano
O grande diferencial desta residência está na aplicação prática da neuroarquitetura, não como discurso conceitual, mas como estratégia concreta. Fluxos claros, circulação intuitiva e portas amplas não são apenas detalhes técnicos — são dispositivos de segurança emocional.

A arquiteta explica que o objetivo foi eliminar ruídos no percurso da casa. “Quando pensamos em envelhecimento, não estamos falando apenas de acessibilidade física, mas de conforto cognitivo. A casa precisa ser lida com facilidade”, afirma Andrea Pedrotti Bonotto.
Consequentemente, ambientes integrados e bem iluminados reduzem zonas de sombra, enquanto a ergonomia foi testada na altura de bancadas, interruptores e armários. O erro comum em projetos voltados para a terceira idade é exagerar na adaptação visível, criando espaços que lembram clínicas. Aqui, o que realmente faz a diferença é a naturalidade com que a acessibilidade se integra ao design.
Conforto térmico e soluções sensoriais
Projetar no Sul do Brasil exige estratégia. O rigor térmico não pode ser ignorado, sobretudo quando se trata de moradores mais sensíveis às variações de temperatura. Nesse sentido, pisos aquecidos foram incorporados às áreas íntimas, enquanto revestimentos vinílicos garantem conforto ao toque e segurança antiderrapante.

Além disso, o elevador hidráulico foi inserido sem protagonismo excessivo. Ele cumpre seu papel estrutural, mas não impõe uma leitura hospitalar ao espaço. Essa é a sutileza do projeto: funcionalidade sem estigmatização.
Aliás, o contato direto com o jardim amplia a experiência sensorial. A transição entre interior e exterior acontece de forma fluida, reforçando a sensação de liberdade que motivou a mudança.
Luxo essencial: estética que fortalece autoestima
Existe um equívoco recorrente quando se fala em envelhecimento: associá-lo à redução. Menos espaço, menos desejo, menos vaidade. Esta casa de 250 m² segue o caminho oposto.

O closet amplo e iluminado não é um capricho, mas um gesto simbólico. Ele reafirma identidade. A marcenaria planejada privilegia organização e alcance confortável, mas mantém sofisticação. Não há concessões visuais que diminuam o morador.

O conceito de luxo essencial aparece na escolha de materiais naturais, iluminação indireta e texturas acolhedoras. O que se percebe é um ambiente que respeita o tempo, mas não se rende a ele.
Memória como elemento estrutural
Mais do que abrigar, a casa acolhe histórias. Móveis herdados e peças afetivas foram incorporados ao layout como âncoras emocionais. Eles não foram escondidos nem substituídos por soluções contemporâneas genéricas.

Essa decisão fortalece o sentimento de pertencimento. “A casa precisa contar a trajetória de quem mora ali. Objetos de memória não são obstáculos, são extensão da identidade”, destaca a arquiteta.
Dessa forma, a residência funciona como um repositório vivo de experiências. O projeto entende que bem-estar não está apenas na ergonomia, mas na continuidade afetiva.
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Jardim sensorial e conexão com o presente
O jardim não é apenas paisagismo decorativo. Ele atua como ferramenta terapêutica. Texturas diversas, variações de altura e espécies que estimulam tato e olfato compõem um jardim sensorial que convida ao contato cotidiano.

Entretanto, não se trata de um espaço contemplativo distante. As aberturas amplas permitem que o verde faça parte da rotina interna. A luz natural percorre os ambientes ao longo do dia, criando variações sutis de atmosfera.
Dica Enfeite Decora: Pouca gente comenta, mas a incidência solar muda completamente a percepção do espaço ao longo do ano. Antes de definir grandes aberturas, observe como a luz de inverno entra na casa e onde o calor se acumula no verão. Esse cuidado evita desconfortos futuros e reduz adaptações improvisadas.
Envelhecer com liberdade é uma escolha arquitetônica
O projeto deixa claro que arquitetura para terceira idade não deve ser restritiva. Quando bem conduzida, ela amplia horizontes. A casa de 250 m² substitui a ideia de clausura por fluidez, e a adaptação por protagonismo.

Portanto, o que se vê não é apenas uma residência com acessibilidade. É uma declaração de autonomia. Um espaço que entende que envelhecer não significa diminuir — significa escolher melhor.
E quando a arquitetura assume esse papel, ela deixa de ser abrigo e passa a ser aliada gentil do tempo.





