Há peças que cumprem uma função. Outras, no entanto, extrapolam o uso cotidiano e se posicionam como manifestações sensíveis do design contemporâneo. A Mesa Seixos pertence a essa segunda categoria. Criada pelo estúdio OHMA, em colaboração com a Esmo Design, a mesa nasce da observação atenta da natureza e da tradução de seus processos lentos e orgânicos em um móvel de presença escultórica.
Reconhecida com o prêmio Novos Talentos Brasileiros Art & Design, na categoria Mobiliário, a Mesa Seixos também integrou a exposição oficial da premiação no CasaShopping, no Rio de Janeiro, consolidando-se como um dos destaques recentes do design autoral nacional.
A origem da forma: quando o tempo se torna linguagem
O ponto de partida da Mesa Seixos está na observação das pedras moldadas pela ação contínua da água ao longo dos anos. Esse processo natural, marcado por desgaste, suavização e equilíbrio, orientou toda a concepção do móvel. Para os arquitetos Nicholas Oher e Paloma Bresolin, o projeto reflete também uma metáfora do próprio fazer criativo.

“A ideia era trabalhar com a noção de transformação silenciosa, aquela que acontece com o tempo. Assim como os seixos são lapidados pela água, acreditamos que o design também amadurece por meio da experimentação e da escuta do material”, destacam.
Essa leitura sensível se traduz em um objeto que evita excessos visuais e aposta na força das formas arredondadas, nos vazios calculados e na sensação de leveza, mesmo sendo construído a partir de um material rígido e linear.
Técnica e equilíbrio: o metal como matéria orgânica
Do ponto de vista construtivo, a Mesa Seixos é composta por chapas metálicas de diferentes dimensões, organizadas de forma aparentemente espontânea, mas rigorosamente equilibrada. Os recortes arredondados e a soldagem precisa criam uma composição que remete ao empilhamento natural das pedras, evocando movimento, estabilidade e fluidez ao mesmo tempo.
Segundo o designer Mateus Dala Rosa, responsável pela colaboração com a Esmo Design, o desafio foi extrair suavidade de um material essencialmente industrial. “Trabalhamos o metal como se fosse um elemento moldável pelo tempo. A intenção nunca foi esconder sua origem, mas reinterpretá-la de forma mais sensível e próxima do gesto artesanal”, explica.
O resultado é um móvel que transita com naturalidade entre o universo da arte e do design, funcionando tanto como mesa quanto como elemento escultórico no ambiente.
Design autoral como narrativa contemporânea
Mais do que um lançamento pontual, a Mesa Seixos marca um momento simbólico para a trajetória da OHMA, criada em celebração aos cinco anos do estúdio. Nesse sentido, a peça sintetiza valores que vêm sendo explorados pelo escritório: a relação entre natureza e arquitetura, a valorização do tempo como agente criativo e o compromisso com um design brasileiro autoral, reflexivo e duradouro.
Ao ocupar o espaço expositivo no Rio de Janeiro e receber o reconhecimento de um júri especializado, a mesa reafirma o potencial do mobiliário nacional em dialogar com discursos contemporâneos do design internacional, sem perder sua identidade local.
Assim, a Mesa Seixos se consolida como um exemplo de como o design contemporâneo brasileiro pode transformar referências naturais em objetos funcionais, poéticos e atemporais — peças que não apenas ocupam o espaço, mas contam histórias silenciosas sobre matéria, tempo e forma.





