Projetar um apartamento de 40 m² à beira-mar pode parecer, à primeira vista, um exercício de otimização espacial. Contudo, quando o horizonte azul domina a paisagem e a literatura entra em cena, a arquitetura deixa de ser apenas funcional e passa a ser narrativa. Em Marselha, na França, o Zyva Studio decidiu não apenas decorar um imóvel compacto, mas reinterpretar o universo de Vinte Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne, dentro de uma proposta de decoração azul radical e conceitual.
O resultado não é simplesmente um apartamento pequeno com vista para o mar. Trata-se de um espaço que assume o azul como linguagem, atmosfera e experiência sensorial.
Azul como conceito — não como tendência
Em tempos em que a decoração em tons de azul é frequentemente associada a frescor e tranquilidade, este projeto vai além do clichê. Aqui, o azul não aparece como detalhe. Ele é estrutura.

O piso dialoga com o horizonte marítimo, as paredes criam continuidade visual e o banheiro — revestido integralmente em mármore azul — transforma-se em uma espécie de câmara de introspecção. O fundador do estúdio descreve o ambiente como “uma reinterpretação livre de uma paisagem subaquática”, reforçando que o projeto não busca literalidade, mas atmosfera.
A escolha de uma única cor dominante pode parecer arriscada em um apartamento compacto, entretanto, quando bem conduzida, ela cria unidade e amplitude visual. Ao eliminar rupturas cromáticas, o olhar percorre o espaço com fluidez, ampliando a sensação de profundidade.
Arquitetura como dispositivo de imersão
Um dos elementos mais simbólicos do projeto são as vigias circulares que atravessam a divisória central. Elas não são meros recursos estéticos. Funcionam como limiares entre dois mundos: a área social e a área íntima.

Assim, a divisão não é rígida. Ela é teatral.
Olhar através dessas aberturas é como espiar outro cenário dentro da própria casa. A metáfora submarina ganha força sem recorrer a cenografia óbvia. Como explica o designer, “é a curiosidade de uma criança que espreita por um buraco de rato para descobrir a paisagem do outro lado”.
Nesse gesto, o projeto ativa algo raro na arquitetura de interiores contemporânea: a curiosidade.
Pequeno no tamanho, complexo na narrativa
A planta do apartamento de 40 m² é organizada por uma divisória central azul profundo. De um lado, sala e cozinha; do outro, quarto e banheiro. Essa solução garante clareza funcional — essencial em imóveis compactos — sem comprometer a fluidez visual.

Enquanto a parede central assume tonalidade intensa, o restante do espaço recebe um bege mineral, que remete às pedras de Marselha. Esse contraste não rompe a narrativa marítima; pelo contrário, cria uma transição entre o oceano imaginado e a cidade real.
Além disso, o piso com padrão náutico em tons creme dialoga com referências clássicas do design europeu, reinterpretando-as sob nova perspectiva. O projeto demonstra que decoração temática não precisa ser caricata. Pode ser sofisticada, silenciosa e conceitual.
Design sensorial e detalhes autorais
A identidade do Zyva Studio se revela nos pequenos gestos: puxadores que lembram ouriços-do-mar, tomadas impressas em 3D com formato orgânico, móveis arredondados que evocam fluidez marinha. Cada detalhe contribui para a coerência narrativa.

No quarto, um espelho inserido no centro de uma armadilha para ursos faz referência ao mito de Narciso. A mensagem é clara: observar o espaço é também confrontar-se. A decoração deixa de ser apenas estética e torna-se simbólica.
Essa abordagem confirma uma tendência crescente na arquitetura contemporânea: projetos que contam histórias. A literatura, nesse caso, não é apenas inspiração; é estrutura conceitual.
O azul como estratégia espacial
Utilizar uma única paleta cromática em um espaço reduzido exige domínio técnico. Tons frios, quando mal aplicados, podem tornar ambientes impessoais. Aqui, porém, o azul é trabalhado em profundidade e variação de textura.

O mármore, a pintura fosca e os acabamentos acetinados criam camadas visuais distintas. Assim, mesmo com predominância cromática, o ambiente não se torna monótono.
Além disso, a conexão com o mar visível pela janela reforça a integração interior-exterior — princípio essencial em projetos litorâneos bem-sucedidos. O horizonte não é apenas vista; é parte da composição.
Um refúgio que convida à fuga
Mais do que um projeto compacto, este apartamento azul funciona como dispositivo de evasão. A proposta não é reproduzir um submarino literal, mas provocar sensação de deslocamento. O morador não está apenas em Marselha. Ele está dentro de uma narrativa.
Essa capacidade de transformar poucos metros quadrados em experiência memorável é o que diferencia projetos comuns de obras autorais. Ao final, fica evidente que o azul não foi escolhido por moda. Foi escolhido como linguagem. E, quando a cor se torna conceito, a arquitetura deixa de ser cenário e passa a ser experiência.





