A arquitetura tem o poder de transformar não apenas o espaço, mas também o modo como vivemos. É sob essa perspectiva que a exposição “Ruy Ohtake – Percursos do habitar” inaugura uma nova etapa da histórica casa-ateliê de Tomie Ohtake, no Campo Belo, em São Paulo. Projetada em 1966 pelo próprio arquiteto para sua mãe, a artista Tomie Ohtake, a residência brutalista passa agora a funcionar como braço expositivo do Instituto Tomie Ohtake, ampliando o diálogo entre arte, arquitetura e cidade.
Mais do que celebrar a memória de um dos nomes centrais da arquitetura brasileira contemporânea, a mostra propõe um mergulho na dimensão doméstica da obra de Ruy Ohtake. Ao reunir seis projetos residenciais concebidos entre as décadas de 1960 e 2010, a exposição evidencia como o arquiteto entendia o habitar como experiência coletiva, sensível e urbana.
A casa como ponto de partida
A escolha da própria residência de Tomie como palco dessa nova fase não é casual. Tombada e reconhecida por sua relevância histórica, a construção sintetiza princípios que atravessam a produção de Ohtake: volumetria marcante, uso expressivo de cores e uma relação cuidadosa entre luz e circulação.

Como destacou a curadora Sabrina Fontenele, “a casa da Tomie é o ponto de partida, ela é tombada, tem importância histórica”. A partir dela, a exposição constrói uma narrativa que conecta o espaço privado à ideia de cidade. Ainda segundo a curadora, “partimos da própria casa e de como o Ruy pensava que cada projeto era uma proposta de cidade”.
Dessa forma, o visitante não percorre apenas ambientes, mas conceitos. Cada residência apresentada funciona como microcosmo urbano, onde sociabilidade, fluidez e integração são elementos centrais.
Percursos do habitar: seis residências, múltiplas leituras
A mostra apresenta as casas Chiyo Hama (1967), Nadir Zacarias (1970), Domingos Brás (1989) e Zuleika Halpern (2004), além do Condomínio Residencial Heliópolis (2008/2009). Em conjunto, esses projetos revelam como o arquiteto revisitava temas recorrentes ao longo do tempo, adaptando-os a novos contextos sociais e urbanos.
Na casa Chiyo Hama, por exemplo, já se percebem anotações que definem o projeto como “casa-praça coberta” — uma formulação que explicita a intenção de criar espaços de encontro e convivência. Assim, a residência deixa de ser apenas abrigo para se tornar cenário de sociabilidade.
O uso da cor, frequentemente associado à produção de Ruy Ohtake, aparece não como recurso decorativo, mas como ferramenta arquitetônica. Superfícies curvas e tonalidades intensas dialogam com a luz natural, moldando atmosferas e orientando o percurso interno. Como afirmou Sabrina Fontenele, “ele tinha uma maneira de projetar que era usando cores e luzes”, reforçando que a experiência sensorial era parte integrante do desenho.
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Maquetes, relatos e a vivência cotidiana
Além de maquetes, desenhos técnicos e fotografias, a exposição inclui vídeos com depoimentos de moradores. Esse recurso amplia a compreensão da obra ao incorporar a dimensão do uso cotidiano.

Ao ouvir relatos sobre como os ambientes são apropriados ao longo dos anos, o visitante percebe que o projeto não se encerra na prancheta. Ele ganha vida nas rotinas, nas adaptações e nas memórias construídas dentro daqueles espaços. Assim, a mostra desloca o foco da estética isolada para a experiência concreta do morar.
Essa abordagem dialoga com uma visão contemporânea da arquitetura, na qual o impacto social e afetivo dos espaços assume protagonismo. A casa deixa de ser objeto e passa a ser processo.
Nova fase da casa-ateliê
Com a abertura da exposição Ruy Ohtake – Percursos do habitar, a casa-ateliê no Campo Belo consolida-se como novo polo cultural da cidade. A partir de março, o imóvel projetado em 1966 passa a receber programação contínua dedicada à arte, arquitetura e design, fortalecendo o legado da família Ohtake.
Ao integrar a residência ao circuito do Instituto, o projeto reforça a importância de preservar não apenas edifícios, mas também narrativas. A casa torna-se, ela própria, exposição permanente — um testemunho da memória arquitetônica brasileira.
Serviço:
Ruy Ohtake – Percursos do habitar
De 7 de março a 31 de maio
Casa-ateliê Tomie Ohtake
Rua Antônio de Macedo Soares, 1800, Campo Belo, São Paulo
De quinta a domingo, das 10h às 17h
Ingressos: R$ 50 (R$ 25, meia)
Informações sobre vendas no site do Instituto Tomie Ohtake.





