Reformar um apartamento dos anos 1950 sem apagar sua história exige sensibilidade. No bairro Paraíso, em São Paulo, o desafio era claro: atualizar a planta de 110 m² para que ela refletisse o presente de um jovem solteiro, com rotina híbrida, viagens frequentes ao litoral e o desejo constante de receber amigos.
A antiga configuração , com cozinha isolada, lavanderia enclausurada e ambientes compartimentados, já não acompanhava o ritmo do morador. Assim, a reforma de apartamento comandanda pelo escritório Cota760 Arquitetura (@cota760.arq), dos arquitetos Luis Rossi, Nicolas Le Roux e Paula Lemos, surgiu como uma oportunidade de reorganizar fluxos, ampliar a área social e valorizar cada metro quadrado.
O ponto central do projeto foi a integração de ambientes, criando uma área contínua onde sala de estar, jantar e cozinha se conectam visual e funcionalmente.
Integração como estratégia de amplitude e convivência
A demolição de alvenarias de vedação revelou o potencial do imóvel. Ao eliminar barreiras físicas, o projeto passou a privilegiar circulação, iluminação natural e convivência.

“O desejo do Gabriel era aproveitar melhor cada metro quadrado e transformar áreas que haviam perdido sentido em um espaço social mais generoso, que dialogasse como ele vive hoje”, explica o arquiteto Luis Rossi.
A nova organização mantém dois dormitórios e banheiro principal na área íntima, preservando privacidade. Já o antigo banheiro de serviço foi convertido em um segundo banheiro completo, funcionando como lavabo e apoio para hóspedes — solução estratégica que amplia a funcionalidade sem comprometer os quartos.

Mais do que ampliar, a reforma reorganizou. Em vez de criar uma suíte a qualquer custo, a decisão foi respeitar o equilíbrio espacial. “Entendemos que, para o uso dele, manter quarto, escritório e banheiro separados da área social já funcionava como uma suíte na prática”, comenta Luis.
Essa leitura evidencia um ponto essencial em arquitetura residencial contemporânea: funcionalidade deve preceder modismos.
Paleta inspirada no surfe: cor sem clichê
O conceito do projeto dialoga diretamente com a paixão do morador pelo surfe. Entretanto, em vez de recorrer a símbolos óbvios, a atmosfera marítima foi construída por meio da paleta de cores inspirada no surfe, aplicada com sutileza.

Tons de azul e verde aparecem em revestimentos, pinturas e mobiliário, criando profundidade e frescor. O verde na cozinha, por exemplo, reforça a sensação de leveza sem comprometer a sobriedade do conjunto.
“Essas cores ajudaram a construir uma atmosfera de praia e de descanso, sem cair em clichês”, destaca o arquiteto.
O resultado é uma ambientação que remete ao mar por sensações — e não por literalidade.
Materialidade que equilibra memória e contemporaneidade
A escolha dos materiais reforça essa narrativa. O piso original de tacos foi preservado, criando continuidade histórica. Já o concreto aparente das vigas dialoga com o cimento queimado da cozinha, estabelecendo uma base urbana e honesta.
A marcenaria em folha natural de jequitibá adiciona acolhimento e textura. Em alguns pontos, o desenho é minimalista; em outros, os puxadores e bordas evidentes criam ritmo visual. Esse contraste controlado entre rústico e minimalista constrói personalidade. Assim, a reforma não descaracteriza o imóvel — ela o atualiza.
Cozinha aberta: o coração social do apartamento
Com a abertura total da cozinha integrada, a ilha central assume protagonismo. A bancada em granito escovado traz resistência e sofisticação, enquanto o revestimento verde adiciona identidade.

A integração permite que quem cozinha permaneça conectado às conversas na sala de jantar. Além disso, a iluminação natural percorre todo o ambiente, ampliando a percepção espacial.
Na lavanderia, a funcionalidade foi pensada além do óbvio: o espaço atende tanto ao banho do cachorro quanto à limpeza das pranchas após as viagens ao litoral. Trata-se de uma solução que traduz estilo de vida em arquitetura.
- Veja também: Método e Sensibilidade: Como Amanda Brandão une o Luxo Silencioso à Funcionalidade Real em seus Projetos.
Memória afetiva como elemento de design
Um dos pontos mais simbólicos da reforma está na reutilização dos azulejos demolidos da antiga cozinha. Transformados em obra de arte na sala de jantar, eles ganharam nova leitura.

“Era um material carregado de lembranças de outra época no apartamento para o Gabriel. Transformá-lo em uma obra que remete ao mar e às ondas foi uma forma de ressignificar essa memória”, afirma Luis.
Essa decisão revela maturidade projetual. Em vez de descartar o passado, o projeto o incorpora de maneira contemporânea.
As tapeçarias trazidas do México também reforçam essa identidade. Uma delas, em azul e branco, cria ponto focal ao lado de uma poltrona laranja, estabelecendo contraste cromático e equilíbrio visual.
Área íntima e Home Office
No quarto, a escolha por paredes brancas, madeira restaurada e cortinas leves cria uma atmosfera de refúgio. A substituição dos caixilhos por modelos acústicos amplia o conforto urbano — decisão técnica que impacta diretamente o bem-estar.

“A ideia era criar uma atmosfera de descanso, com luz filtrada e materiais honestos”, resume o arquiteto.
No banheiro principal, o amarelo aplicado no alinhamento superior das janelas injeta energia sem comprometer a neutralidade geral. É um gesto cromático preciso, que valoriza a luz natural.

Com o crescimento do home office, o desenho da bancada ganhou atenção especial. Pensada para oferecer apoio adequado aos braços, ela demonstra como ergonomia e estética podem coexistir. A presença de plantas, como a Ficus elástica, reforça a conexão com a natureza e dialoga com a paleta do restante do apartamento.
Quando a arquitetura traduz estilo de vida
O projeto demonstra que reforma de apartamento com integração de ambientes vai além da demolição de paredes. Trata-se de alinhar espaço e identidade.
“Desde o início, senti que minhas expectativas foram compreendidas e traduzidas em soluções que respeitam o charme original do apartamento dos anos 1950, mas com um toque brasileiro contemporâneo”, celebra o morador.
Assim, o imóvel deixa de ser apenas cenário e passa a ser extensão da personalidade de quem o habita.





