Durante décadas, o design de mobiliário foi resultado direto do gesto humano: o traço, a maquete, a experiência acumulada e o repertório cultural de quem projeta. Entretanto, a ascensão da inteligência artificial no design começa a deslocar esse eixo criativo. Não se trata apenas de automatizar etapas, mas de questionar quem – ou o que – participa da concepção da forma.
Um experimento recente envolvendo o Google e sistemas generativos apresentou uma cadeira de design biomórfico que parece ter sido moldada por forças naturais, como se tivesse crescido organicamente em vez de sido desenhada. A peça inaugura um debate urgente: até onde a máquina cria? E onde começa a curadoria humana?
Por que escolhemos este projeto?
Selecionamos este experimento porque ele materializa uma transformação real no setor de design contemporâneo. Não é um conceito futurista distante: trata-se de uma peça física, impressa em metal, que traduz a colaboração entre inteligência humana e algoritmos. Em um momento em que a tecnologia redefine processos criativos, compreender essa mudança é essencial para arquitetos, designers e entusiastas do décor.
Quando o algoritmo aprende a linguagem do design
O projeto foi conduzido pelo designer britânico Ross Lovegrove em colaboração com o Google DeepMind. Reconhecido por sua estética orgânica e futurista, Lovegrove alimentou o sistema com esboços autorais, permitindo que o modelo assimilasse curvas contínuas, superfícies fluidas e sua abordagem estrutural inspirada na natureza.

O treinamento utilizou uma técnica de adaptação que possibilita ajustar grandes modelos de IA a linguagens visuais específicas. Dessa forma, a IA generativa no design deixou de produzir imagens genéricas e passou a responder dentro de um repertório formal reconhecível.
A proposta, contudo, não era delegar a criação à máquina, mas expandir o campo de possibilidades. Como o próprio Lovegrove observa, “a tecnologia deve ampliar a inteligência humana, não substituí-la”. A frase sintetiza o espírito do experimento: a IA como extensão criativa.
Da abstração digital à cadeira funcional
Entre centenas de variações, uma proposta específica — batizada de Seed 6143 — foi escolhida para aprofundamento. A seleção considerou não apenas impacto visual, mas viabilidade estrutural e potencial ergonômico.

Aqui, a transição do digital para o físico foi decisiva. O processo combinou modelagem tridimensional, simulações estruturais e fabricação por impressão 3D em metal com braço robótico. O resultado é uma peça com superfície contínua, sem junções aparentes, cuja geometria remete a organismos moldados por crescimento e adaptação.
Essa abordagem evidencia uma mudança importante no mobiliário contemporâneo: formas antes impossíveis por métodos tradicionais tornam-se executáveis graças à fabricação digital. Assim, a cadeira deixa de ser apenas um exercício formal e se afirma como objeto funcional.
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A linguagem como limite da inteligência artificial
Um dos desafios centrais foi a interpretação dos comandos. Termos técnicos utilizados no estúdio não eram compreendidos adequadamente pelo modelo. Curiosamente, o uso direto da palavra “cadeira” conduzia o algoritmo a soluções previsíveis, baseadas em tipologias convencionais.
Ao substituir o termo por descrições como “superfície contínua biomórfica” ou “fluxo estrutural orgânico”, os resultados tornaram-se mais experimentais. Esse ajuste revela um ponto crucial: a inteligência artificial no design de móveis ainda depende fortemente da curadoria humana para escapar do repertório já existente.

O arquiteto japonês Kengo Kuma, conhecido por explorar leveza e integração com a natureza, já afirmou que “as estruturas mais interessantes são aquelas que permitem que a luz e o ar atravessem, sem impor peso excessivo”. Embora se refira à arquitetura, o princípio dialoga com a cadeira biomórfica: leveza estrutural e fluidez formal como valores centrais.
Entre autoria e autonomia algorítmica
Durante o processo, algumas variações produzidas pelo sistema se distanciaram do estilo habitual de Lovegrove, aproximando-se de estéticas mais sombrias e biomecânicas. Essa deriva evidencia a tensão entre controle humano e autonomia algorítmica.
Ainda assim, o experimento não aponta para a substituição do designer. Pelo contrário: reforça seu papel como editor, curador e estrategista criativo. A IA no design contemporâneo propõe caminhos, mas é o olhar humano que decide quais deles fazem sentido.
Nesse cenário, o profissional não perde relevância. Ele amplia sua atuação. A máquina sugere; o criador seleciona, ajusta, valida e contextualiza.
O que isso significa para o futuro do design de interiores
Para quem atua em decoração de ambientes e arquitetura contemporânea, a experiência abre novas possibilidades. Imagine móveis personalizados gerados a partir do repertório estético de um escritório específico, adaptados ao espaço, à ergonomia e à identidade do cliente.
Além disso, a fabricação digital pode reduzir desperdícios e otimizar materiais, alinhando-se a princípios de sustentabilidade. Assim, a inteligência artificial no design de mobiliário não se limita à forma: impacta processos, custos e eficiência. Contudo, o valor continua residindo na intenção. A tecnologia é ferramenta. O conceito é humano.





