Há imóveis que carregam história. Outros, porém, pedem transformação. Em Copacabana, um antigo apartamento compartimentado de 180 m² deu lugar a um loft contemporâneo de identidade marcante, onde a estética industrial, a integração dos ambientes e a personalidade dos moradores assumem protagonismo.
Assinado pelo escritório VRO Arquitetura, sob comando da arquiteta Vivian Reimers, o projeto rompeu com a planta tradicional de três quartos para criar um espaço fluido, urbano e cosmopolita. A proposta não era apenas modernizar: era reinterpretar o modo de morar.
O pedido dos proprietários — um casal apaixonado por viagens, encontros e pela convivência com seus dois pets — foi direto: nada de branco. Queriam um lar com personalidade, textura e atmosfera. Assim, nasceu um loft com alma urbana, onde cada material comunica atitude e cada detalhe carrega intenção.
Integração total e a essência do loft nova-iorquino
A reforma partiu da desconstrução completa da compartimentação original. Paredes foram removidas para revelar amplitude e continuidade visual. Dessa forma, a essência dos clássicos lofts industriais foi resgatada: estruturas aparentes, liberdade espacial e materialidade crua.

A arquiteta trabalhou uma paleta composta por cinzas profundos, madeira escura, metal e vigas aparentes, criando uma base urbana e sofisticada. Contudo, o resultado não é frio. Pelo contrário: a sobreposição de texturas foscas, iluminação estratégica e mobiliário sob medida cria uma atmosfera acolhedora e intimista.
“Nada aqui é óbvio. Cada detalhe foi desenhado para ser funcional, visualmente leve e coerente com a identidade do projeto”, explica Vivian Reimers. “Até os pontos de cor aparecem de forma sutil, em objetos afetivos trazidos das viagens dos moradores.”
Estrutura metálica como elemento escultórico
Na área social, uma estante escultural em metal assume papel central. Mais do que armazenamento, ela organiza o espaço e estabelece ritmo visual. Com pranchas que funcionam como apoio, mesa lateral e até banco, a peça dialoga diretamente com a marcenaria e os móveis desenhados sob medida.

Além disso, o bar e o móvel de TV que também funciona como home-office seguem a mesma linguagem de chapas metálicas com grades perfuradas, o que garante leveza e continuidade estética.
A iluminação pontual reforça volumes e materiais. Durante o dia, a luz natural percorre a planta livre e evidencia as texturas. À noite, cenários mais intimistas valorizam a profundidade dos acabamentos e o caráter urbano do espaço.
Quando a limitação vira solução arquitetônica
Integrada à sala, a cozinha industrial mantém a mesma linguagem material, porém apresenta uma das soluções mais interessantes da reforma.

As tubulações verticais da estrutura original do prédio — que não podiam ser removidas — foram incorporadas ao projeto. Ao invés de escondê-las, a arquiteta decidiu revestir as colunas e utilizá-las como suporte para uma estrutura metálica suspensa sobre o fogão.
Assim, uma limitação técnica transformou-se em elemento de design. A solução reforça o caráter industrial e evidencia uma das premissas mais fortes do projeto: assumir a arquitetura como linguagem.
Suíte integrada e o diálogo entre privacidade e fluidez
Na área íntima, a proposta de integração permanece. A suíte master reúne dormitório, closet e banheiro em um único ambiente contínuo. Entretanto, para garantir privacidade sem bloquear a luminosidade, um painel de muxarabi atua como divisória permeável.

Esse recurso traz leveza visual e cria uma transição delicada entre os usos, além de acrescentar textura e profundidade à composição.

O banheiro abriga uma banheira de imersão, reforçando o contraste entre o urbano e o relaxamento. Já o dormitório ganhou um móvel desenhado especialmente para os pets, unindo banco, futons e área ventilada — um gesto que traduz o cuidado com a rotina dos moradores.
Industrial, mas afetivo
Mais do que um exercício de estilo, o projeto revela coerência entre arquitetura e biografia. Cada escolha material, cada solução estrutural e cada objeto decorativo reforça a narrativa de um casal que vive a cidade intensamente, mas valoriza o conforto do lar. É um loft industrial em Copacabana, mas também um espaço de memórias, viagens e encontros. Um ambiente onde o urbano encontra o íntimo.

Ao final, o que se vê não é apenas uma reforma bem executada. É a materialização de um estilo de vida. Um lugar onde a arquitetura deixa de ser cenário e se transforma em extensão da identidade. E talvez seja essa a verdadeira definição de um loft com alma urbana: quando o espaço fala a mesma língua de quem o habita.





