Erguer uma casa é, muitas vezes, contar uma história. Revitalizá-la, décadas depois, exige sensibilidade para ouvir o que a arquitetura original ainda tem a dizer. Na revitalização de casa dos anos 40 localizada na Zona Sul do Rio de Janeiro, o projeto parte justamente desse princípio: respeitar a memória afetiva construída ao longo de gerações e, ao mesmo tempo, adaptá-la às necessidades de uma família contemporânea.
Construída no final da década de 1940 a pedido dos avós maternos da atual moradora — um casal de húngaros que encontrou no Brasil a possibilidade de recomeçar no pós-guerra —, a residência de 650 m² passou por uma transformação cuidadosa, conduzida pela arquiteta Natália Lemos. O desafio era claro: atualizar a casa sem apagar suas marcas originais, criando ambientes mais fluidos, iluminados e voltados para o convívio.
Arquitetura original como ponto de partida
Desde o início, a proposta da revitalização de casa dos anos 40 foi trabalhar com a estrutura existente, evitando intervenções que descaracterizassem o volume original. Distribuída em três pavimentos, a residência mantém a organização clássica, agora reinterpretada. No térreo, sala de estar, hall, cozinha, jantar, lavabo, escritório e uma ampla varanda gourmet se articulam de forma mais aberta. No andar superior, a suíte do casal preserva a atmosfera íntima, enquanto o subsolo abriga um spa, pensado como espaço de desaceleração.

Segundo Natália Lemos, preservar elementos como as claraboias existentes foi essencial para manter a identidade do imóvel. “Esses recursos fazem parte da lógica construtiva da época e seguem extremamente atuais, sobretudo pela qualidade da luz natural que proporcionam”, explica a arquiteta, ao comentar a decisão de manter as aberturas originais nos dormitórios.
Integração dos espaços e novas formas de viver a casa
Um dos principais pedidos dos moradores era transformar a casa em um lugar mais aberto ao encontro. Assim, a revitalização de casa dos anos 40 ganhou força a partir da integração dos ambientes sociais, especialmente com a incorporação da varanda gourmet à arquitetura existente.

A solução encontrada respeita o volume original por meio de uma cobertura leve, em estrutura metálica branca, policarbonato e junco natural. A escolha dos materiais cria um diálogo sutil entre o antigo e o novo, sem impor rupturas visuais. Dessa forma, o novo espaço se apresenta como uma extensão natural da casa, ideal para receber amigos e celebrar o cotidiano.

Outro ponto decisivo foi a demolição da antiga área de serviço, o que permitiu integrar cozinha e sala de jantar. No lugar, uma cobertura metálica com fechamento em vidro se conecta a um jardim de inverno, garantindo iluminação abundante e ventilação cruzada. O resultado é um espaço mais generoso, onde a luz passa a ser elemento central da experiência.
Memória, curadoria e identidade
Mais do que uma reforma, a revitalização de casa dos anos 40 se constrói como um exercício de curadoria afetiva. A moradora participou ativamente de cada decisão, contribuindo para que os ambientes refletissem não apenas um estilo, mas uma história de vida.

Obras herdadas da família, como o quadro Cacaueiro, de Januário de Oliveira, e uma pintura de Djanira, convivem com peças garimpadas ao longo dos anos. Um carrinho de chá transformado em bar, cerâmicas produzidas pela própria moradora, um pufe recebido de presente e uma bicicleta vintage trazida de Portugal reforçam o caráter único da casa. Cada objeto carrega uma narrativa, incorporada ao projeto de forma natural.
Design brasileiro e materialidade como linguagem
O mobiliário segue a mesma lógica de equilíbrio. Peças do acervo pessoal dividem espaço com criações de designers brasileiros, como os bancos Toti, de Bernardo Figueiredo, o banquinho Mocho, de Sergio Rodrigues, a poltrona Gisele, de Aristeu Pires, e as cadeiras Helga, do Estudiobola. Essa mistura reforça o caráter atemporal do projeto, conectando diferentes épocas do design nacional.

A paleta de cores privilegia materiais naturais — pedra, madeira e tijolinho aparente — contrastados com paredes, tetos e esquadrias brancos, que funcionam como pano de fundo neutro. Os pontos de cor surgem de forma pontual, nas obras de arte, nos tecidos, na vegetação e nos azulejos originais da cozinha, cuidadosamente restaurados.

Natália Lemos destaca que a preservação desses azulejos foi um dos momentos mais delicados da obra. “Cada peça foi restaurada individualmente. Em áreas onde houve perdas, novos exemplares foram produzidos artesanalmente, respeitando o desenho original, para garantir continuidade visual e fidelidade histórica”, explica.
Um novo capítulo para uma casa histórica
Ao final do processo, a revitalização de casa dos anos 40 revela que preservar não é sinônimo de musealizar. Pelo contrário: é permitir que a arquitetura atravesse o tempo com relevância, acolhendo novas rotinas, novas gerações e novos significados.

O projeto mostra que, quando história e soluções atuais caminham juntas, a casa deixa de ser apenas um abrigo e se transforma em um espaço vivo — onde memória, afeto e contemporaneidade convivem em harmonia.





