Em projetos de arquitetura de interiores, algumas soluções chamam atenção pela imponência. Outras, no entanto, transformam o espaço de forma mais silenciosa, quase imperceptível — e justamente por isso revelam alto grau de sofisticação. É o caso do cubo aéreo, um volume suspenso que, quando bem aplicado, redefine a leitura da marcenaria e melhora a experiência de uso da cozinha.
Longe de ser apenas um armário superior, o cubo aéreo exige precisão técnica, sensibilidade estética e atenção absoluta à ergonomia. Um pequeno erro de proporção pode comprometer tanto o conforto quanto a fluidez visual do ambiente.
Por que o cubo aéreo exige mais cuidado do que parece
Ao contrário dos armários superiores tradicionais, o cubo aéreo atua como um elemento escultórico dentro do projeto. Ele flutua no campo visual, cria ritmo e organiza funções, mas não pode interferir na área de trabalho.

Segundo o arquiteto Bruno Moraes, do BMA Studio, o primeiro cuidado está na altura. “Quando optamos por essa configuração, o armário superior não pode descer além do alinhamento da bancada inferior. Caso contrário, cria-se um ponto de impacto direto no uso da pia”, explica.
Por isso, antes mesmo de definir o desenho da marcenaria, o arquiteto avalia a estatura do morador e a dinâmica cotidiana da cozinha. Dessa forma, a altura do cubo aéreo deixa de ser uma medida padrão e passa a ser uma resposta personalizada ao uso real do espaço.
A prateleira recuada como estratégia funcional
Um dos segredos mais eficientes para garantir conforto no uso do cubo aéreo está na prateleira recuada. Essa solução libera a área de trabalho, evita colisões durante o preparo de alimentos e reduz a sensação de volume sobre a bancada.
Bruno Moraes destaca que o recuo não é apenas funcional, mas também visual. “A prateleira recuada cria uma zona de respiro. Ela faz com que o cubo pareça mais leve, mesmo quando abriga materiais expressivos”, afirma.
Assim, o cubo aéreo deixa de ser um bloco pesado e passa a dialogar com o restante da cozinha de maneira equilibrada, respeitando tanto o campo visual quanto a movimentação do corpo.
Alinhamento e continuidade: o papel da marcenaria bem resolvida
Outro ponto essencial no uso do cubo aéreo está no alinhamento rigoroso de todas as suas faces. Laterais, base e topo precisam seguir uma leitura contínua, sem quebras ou interferências que fragmentem o volume. Quando a marcenaria recebe lâminas marmorizadas ou acabamentos de destaque, essa continuidade se torna ainda mais importante.

“Como a lâmina marmorizada é protagonista, evitamos interrupções visuais. O volume precisa ser lido como um único gesto”, observa Bruno Moraes.
Essa decisão reforça o caráter arquitetônico do cubo aéreo, que passa a funcionar como um elemento integrador do projeto, e não apenas como um módulo funcional.
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Tecnologia invisível e estética limpa
Em cozinhas contemporâneas, a presença de tomadas, interruptores e pontos elétricos pode comprometer a pureza do desenho. No caso do cubo aéreo, essa preocupação é ainda maior, já que qualquer interferência visual rompe a leitura do volume. A solução adotada pelo arquiteto é embutir a tomada diretamente na bancada.
“Quando não está em uso, ela desaparece. Isso mantém o conjunto limpo, coerente e alinhado à proposta do projeto”, explica.
Dessa forma, tecnologia e funcionalidade coexistem com uma estética refinada, sem ruídos visuais ou excessos.
Quando o cubo aéreo faz sentido no projeto
O cubo aéreo não é uma solução universal, tampouco deve ser aplicado por tendência. Ele funciona melhor em projetos que valorizam linhas contínuas, materiais expressivos e uma relação cuidadosa entre cheios e vazios.
Quando bem dimensionado, ele organiza funções, valoriza a marcenaria e confere identidade ao ambiente. Contudo, seu sucesso depende de decisões precisas, baseadas no uso real da cozinha e na leitura arquitetônica do espaço.
Mais do que um elemento de destaque, o cubo aéreo é um exercício de equilíbrio entre forma, função e experiência — exatamente o tipo de solução que diferencia um projeto comum de um projeto verdadeiramente bem pensado.





