Em um momento em que as casas passaram a ser mais do que abrigos — tornando-se espaços de convivência intensa, descoberta e pausa —, este dúplex de 160 m², em Curitiba, surge como uma resposta delicada a um desafio comum: como criar um lar que seja ao mesmo tempo seguro para crianças pequenas e esteticamente sofisticado para os adultos.
Desenvolvido para um jovem casal e seus filhos gêmeos, o projeto parte de um princípio claro: a proteção não precisa ser visível, e a funcionalidade não deve comprometer a beleza. Assim, a arquitetura assume um papel quase silencioso, em que cada decisão técnica se transforma em gesto sensível, integrando-se ao desenho do espaço.
Uma arquitetura que protege sem se impor
Assinado por Franco Luiz Faust, do escritório Faust Arquitetos, em parceria com Gabriel Zem Schneider, Lucas Aguillera, Shinyashiki e Thiago Augustus, o projeto revela uma abordagem que privilegia o equilíbrio. Desde o início, o objetivo foi desenhar uma casa capaz de acompanhar o crescimento dos gêmeos, criando um ambiente que favorecesse a autonomia e a curiosidade sem abrir mão da segurança.

“Pensamos a arquitetura como uma espécie de sistema de cuidado invisível”, define Franco Faust. Em vez de grades, barreiras e soluções evidentes, o projeto investe em desenho, proporção e fluidez para criar um espaço intuitivamente seguro.
A força do layout e da marcenaria como elementos de proteção
Entregue em estado bruto, o imóvel apresentava uma ampla área social no pavimento inferior e os dormitórios no andar superior, ligados por uma escada plissada. A generosidade desse vazio central exigia soluções precisas, capazes de preservar a circulação e, ao mesmo tempo, garantir proteção aos pequenos.
É nesse ponto que a marcenaria assume protagonismo. A estante desenhada sob medida ao longo da escada não apenas organiza livros, brinquedos e objetos, como também funciona como guarda-corpo contínuo, eliminando a necessidade de elementos adicionais. A segurança surge integrada à estética.

As portas escamoteáveis da cozinha e do bar seguem a mesma lógica. Elas permitem controlar o acesso das crianças a áreas sensíveis sem interferir na leitura visual dos ambientes, reforçando a sensação de continuidade e leveza.
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Materialidade que acolhe e organiza
A paleta do projeto é contida, mas expressiva. A base de madeira, branco e preto cria um cenário neutro e sofisticado, capaz de absorver as camadas emocionais da família. No living integrado à cozinha, a marcenaria em madeira aquece o espaço, enquanto as superfícies claras da cozinha trazem precisão e frescor.
Essa transição suave entre materiais estabelece uma hierarquia visual que organiza o espaço sem fragmentá-lo, criando uma experiência contínua de circulação e uso.
Quando a casa também conta histórias
Entre as decisões mais afetivas do projeto está o tapete da sala, desenhado pela própria moradora. Inspirado nas pistas e nas cores dos grandes prêmios de Fórmula 1, ele funciona como um manifesto pessoal, inserindo memória, identidade e emoção na arquitetura.

Esse detalhe revela um aspecto central do projeto: mais do que um exercício de forma, o dúplex foi concebido como um retrato vivo de quem o habita.
Varanda como extensão da vida
A varanda amplia o programa da casa ao reunir spa, brinquedoteca e paisagismo em um mesmo espaço. O verde delicado, assinado pelo escritório Mogá, atua como contraponto natural à arquitetura, criando uma atmosfera de refúgio e respiro.

Nesse ambiente, lazer e descanso convivem de forma fluida, reforçando a ideia de que o lar não se organiza por compartimentos rígidos, mas por experiências.
Suíte: o ponto de equilíbrio do projeto
No pavimento superior, a suíte traduz com precisão o conceito do dúplex. A composição entre madeira, branco e preto cria um espaço sereno, silencioso e profundamente acolhedor. Não há excessos, apenas o essencial — e isso é o que torna o ambiente elegante e atemporal.

Como observa Franco Faust, “quando o desenho é preciso, a casa não precisa falar alto. Ela apenas funciona e acolhe”.





