Construir uma casa de campo em meio a um bosque de araucárias centenárias não é apenas um desafio técnico. É, sobretudo, um exercício de sensibilidade. Em Itaipava, na serra fluminense, essa premissa orientou cada decisão do projeto desenvolvido por Maurício Magarão e Alice Lindenberg, do escritório Magarão + Lindenberg Arquitetura, que assinam uma residência onde a paisagem não é pano de fundo, mas estrutura essencial do morar.
Implantada em um terreno íngreme de 10 mil metros quadrados, a casa nasce do próprio lote, tanto em forma quanto em matéria. Pedras encontradas durante as escavações foram incorporadas à arquitetura, árvores foram preservadas e os volumes acompanharam o relevo, criando uma edificação que parece ter sempre pertencido àquele lugar.
Arquitetura guiada pela topografia e não o contrário
Desde o início, o partido arquitetônico partiu de uma escolha fundamental: respeitar as curvas naturais do terreno. Em vez de impor grandes cortes ou platôs artificiais, o projeto adotou um volume linear disposto paralelamente ao relevo, permitindo que os ambientes se organizassem em patamares suaves, com mínima movimentação de terra e máxima integração visual.

Segundo a arquiteta Alice Lindenberg, o entorno foi determinante para o desenho final. “A conformação do terreno e o bosque de araucárias tiveram papel decisivo na implantação e na volumetria. A casa precisava acompanhar a paisagem, e não competir com ela”, explica.
Essa decisão técnica se traduz em uma experiência espacial contínua, em que o olhar percorre o verde, a pedra, a madeira e o céu sem rupturas bruscas.
Pedra, aço e madeira como linguagem arquitetônica
A materialidade da casa reforça sua conexão com o lugar. Estrutura metálica aparente, madeira natural na cobertura e alvenarias revestidas em pedra criam uma composição de força e leveza ao mesmo tempo. Parte dessas pedras foi extraída do próprio terreno, utilizada em muros, na garagem, no volume da sauna e em paredes internas, mantendo visível a origem da construção.

Maurício Magarão destaca que esse uso vai além da estética. “Quando você incorpora o material do próprio lote, a casa passa a contar a história daquele terreno. Não é apenas revestimento, é memória geológica transformada em arquitetura”, afirma.
Grandes esquadrias em alumínio com acabamento Corten e venezianas de madeira ampliam o diálogo com a paisagem, enquanto panos de vidro dissolvem os limites entre interior e exterior.
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Uma casa pensada para reunir
Mais do que um refúgio, a residência foi concebida como espaço de encontro. Destinada a uma família numerosa, formada por três irmãos, seus filhos e os pais, a casa precisava acolher convivência intensa, esportes e lazer ao ar livre.

Por isso, o projeto inclui quadras de tênis e beach tennis, grandes terraços, piscina, spa e uma área gourmet que funciona como centro afetivo da casa. É em torno dela que as refeições, as conversas e os momentos informais acontecem, sempre com a natureza como cenário.
O paisagismo, assinado por Adriana Fonseca, do Orvalho Paisagismo, organiza os caminhos e acessos para que o bosque não seja apenas contemplado, mas vivido.
Interiores que prolongam a paisagem
Os interiores seguem a mesma lógica da arquitetura: neutralidade, leveza e continuidade. O escritório optou por uma base sóbria, que equilibra móveis existentes com novas peças, criando ambientes amplos e visualmente serenos.

Destaques como a poltrona Mole, de Sergio Rodrigues, e a grande mesa de jantar com buffet da Ovoo dialogam com as paredes de pedra e o forro de madeira, resultando em uma elegância que não tenta competir com o exterior, apenas acompanhá-lo.
Os diferentes tipos de madeira presentes nos pisos, esquadrias e estrutura da cobertura também contribuem para o conforto térmico, essencial em uma casa de serra.
Luz filtrada, calor e abrigo
Em áreas como o espaço gourmet e os terraços, o forro em palha de dendê trançada cria uma camada sutil entre sol e sombra, filtrando a luz e proporcionando uma sensação de proteção sem peso visual.

Já na área externa, a lareira, posicionada ao lado de uma araucária centenária, reúne pedra, concreto e aço Corten em uma composição que convida ao uso noturno, ao redor do fogo e da paisagem.
Uma arquitetura que sabe desaparecer
Mais do que um exercício de forma, esta casa em Itaipava é um exemplo de arquitetura que entende quando deve aparecer — e quando deve se dissolver no ambiente. Ao usar o próprio solo como matéria-prima, ao respeitar a topografia e ao preservar o bosque, o projeto constrói não apenas uma residência, mas uma relação duradoura entre arquitetura e natureza.
É nesse equilíbrio silencioso que o verdadeiro luxo da casa se revela.





