A construção civil brasileira sempre foi marcada por ciclos longos, decisões conservadoras e mudanças graduais. No entanto, a última década abriu espaço para um novo protagonista: as startups da construção civil, também conhecidas como construtechs, que vêm introduzindo tecnologia, novos modelos produtivos e soluções digitais em um setor historicamente resistente à inovação. Agora, um novo retrato desse ecossistema mostra que o momento é menos eufórico, porém mais estratégico.
Após um período de forte crescimento nos aportes financeiros, o cenário atual indica uma clara fase de maturação. Em vez de grandes rodadas de investimento, o setor passa a priorizar eficiência, consolidação e soluções que realmente impactem o dia a dia dos canteiros, escritórios de arquitetura, incorporadoras e construtoras.
Da euforia ao amadurecimento: o novo ciclo das construtechs
Os números ajudam a entender essa virada. Em 2022, as construtechs brasileiras movimentaram cerca de R$ 621 milhões em investimentos, impulsionadas pelo entusiasmo com a digitalização acelerada do setor. Já em 2025, o volume caiu para R$ 16 milhões, distribuídos em apenas três acordos. A diferença é expressiva, mas não indica estagnação.
Segundo Daniel Grossi, cofundador da Liga Ventures, o momento atual reflete uma transição natural. Para ele, o setor segue cauteloso, especialmente na adoção de inteligência artificial, mas está longe de parar. A construção civil vive, segundo Grossi, um processo inevitável de modernização, marcado pela industrialização, pela digitalização dos processos e pela busca por ganhos reais de produtividade.
Essa mudança de ritmo força as startups a amadurecerem seus modelos de negócio, abandonando soluções genéricas e focando em problemas concretos do setor.
Um ecossistema diverso, técnico e cada vez mais B2B
O levantamento mais recente mapeia 267 startups da construção civil ativas no Brasil, distribuídas em 24 categorias diferentes. Um dado revelador é que 81% dessas empresas atuam no mercado B2B, atendendo construtoras, escritórios de arquitetura, engenharias, incorporadoras e gestores de obras.
Entre as principais frentes de atuação, destacam-se soluções voltadas para cotação e compra de insumos, construção modular, gestão e controle de obras, realidade virtual e interatividade e também conteúdo e educação técnica. Essa diversidade mostra que a inovação não se concentra apenas no canteiro, mas atravessa toda a cadeia produtiva da construção.
Outro aspecto relevante é o perfil etário dessas empresas. Cerca de 20% das construtechs foram criadas entre 2020 e 2025, período marcado por instabilidade econômica, pandemia e mudanças profundas nos hábitos de trabalho. Ainda assim, novas soluções continuam surgindo, agora com propostas mais enxutas e foco claro em valor entregue.
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Inteligência artificial avança com foco prático
Mesmo em um cenário mais cauteloso, a inteligência artificial na construção civil começa a ganhar aplicações concretas. Atualmente, 29 startups já utilizam IA em suas soluções, principalmente em áreas como automação de projetos arquitetônicos e de engenharia, gestão inteligente de obras, monitoramento de canteiros, visão computacional e gêmeos digitais.
A diferença em relação aos anos anteriores está na abordagem. Em vez de promessas futuristas, a IA passa a ser aplicada para resolver gargalos reais, como atraso de cronogramas, desperdício de materiais, falhas de comunicação entre equipes e baixa previsibilidade de custos.
Maturidade revela onde estão as oportunidades
Ao analisar o grau de desenvolvimento dessas startups, o estudo aponta um ecossistema relativamente equilibrado. 37% das construtechs estão em estágio estável, enquanto 30% são emergentes, 22% ainda nascentes e apenas 11% se posicionam como disruptoras. Esse retrato reforça a ideia de que o setor entra agora em uma fase de seleção natural.
Para Daniel Grossi, o ritmo mais lento de inovação cria, paradoxalmente, um terreno fértil para quem deseja liderar. Segundo ele, as maiores oportunidades estão nas soluções que atacam dores históricas da construção, como eficiência de obra, previsibilidade financeira e redução de desperdícios. Startups capazes de “mexer no ponteiro” nesses pontos tendem a ganhar espaço mesmo em um ambiente mais seletivo.
O impacto direto no futuro da arquitetura e da construção
Esse novo momento das startups da construção civil não afeta apenas investidores ou empreendedores, mas também profissionais de arquitetura, design de interiores, engenharia e urbanismo. Ferramentas mais inteligentes, processos mais integrados e modelos construtivos industrializados começam a influenciar desde a concepção dos projetos até a execução final.
Mais do que uma desaceleração, o que se observa é uma mudança de mentalidade. O setor deixa para trás a corrida por crescimento acelerado e passa a valorizar soluções sólidas, escaláveis e alinhadas às necessidades reais da construção contemporânea. Nesse contexto, inovação deixa de ser discurso e passa a ser, cada vez mais, prática cotidiana.





