Resumo
• A única casa projetada por Oscar Niemeyer em São Paulo está à venda por R$ 15 milhões e representa um raro exemplar da arquitetura residencial do modernismo brasileiro.
• Localizada no Alto de Pinheiros, a residência traduz a linguagem de Niemeyer em escala doméstica, com curvas, concreto aparente e integração intensa com a natureza.
• O projeto, iniciado nos anos 1960 e concluído em 1974, foi um presente pessoal ao engenheiro Milton Mitidieri e permanece com a mesma família desde então.
• Ambientes fluidos, rampas sinuosas e desníveis estratégicos criam continuidade espacial e reforçam a experiência sensorial proposta pelo arquiteto.
• Sem tombamento oficial, a casa reacende debates sobre preservação do patrimônio e surge como uma obra de arte habitável, carregada de história e significado.
Poucos imóveis conseguem atravessar o tempo preservando não apenas sua estrutura, mas também o pensamento de quem os idealizou. É exatamente esse o caso da única casa projetada por Oscar Niemeyer em São Paulo, que acaba de ser colocada à venda por R$ 15 milhões. Mais do que um endereço nobre no Alto de Pinheiros, a residência representa um capítulo raro da obra do arquiteto que, se estivesse vivo, completaria 118 anos.
Conhecido internacionalmente por edifícios monumentais e traços escultóricos, Niemeyer também se dedicou — ainda que raramente — à arquitetura residencial. E foi nesse território mais íntimo que ele explorou, com liberdade quase absoluta, sua visão de espaço, forma e convivência.
Uma obra modernista em escala doméstica
Projetada no início dos anos 1960 e concluída apenas em 1974, a casa foi um presente pessoal de Niemeyer ao engenheiro Milton Mitidieri, parceiro do arquiteto em obras emblemáticas de Brasília. Implantada em um terreno generoso de cerca de 1.800 metros quadrados, a residência soma aproximadamente 670 metros quadrados de área construída e permanece, até hoje, sob posse da mesma família.

Ao contrário da rigidez comum às casas tradicionais, o projeto se constrói a partir da fluidez. Curvas substituem ângulos retos, os ambientes se conectam sem barreiras visuais e a relação com o jardim é constante. O concreto aparente, combinado a grandes panos de vidro, cria uma sensação contínua de leveza estrutural e integração com a paisagem.
Segundo o arquiteto Bruno Kim, viver em uma residência como essa é uma experiência singular. Para ele, a casa traduz de forma clara o pensamento do modernismo brasileiro: “A impressão é de estar fora mesmo estando dentro. Morar numa casa de Niemeyer é viver dentro de um manifesto de modernidade”.
Espaços pensados para a convivência e a liberdade
Internamente, a residência rompe com a compartimentação convencional. As paredes não alcançam o teto, permitindo que a luz natural e a ventilação circulem de maneira fluida. Um dos ambientes mais emblemáticos é a sala de jantar circular, posicionada um metro abaixo do piso principal — uma decisão descrita pelo próprio Niemeyer em correspondência enviada à família, revelando o cuidado quase artesanal com cada detalhe.
Outro elemento marcante é a rampa de madeira que conecta as áreas social e íntima, referência direta às soluções espaciais que o arquiteto consagrou em edifícios públicos. O corredor curvo que leva aos quartos, apelidado carinhosamente de “barriguinha” pelos moradores, reforça a ideia de movimento contínuo e surpresa espacial, característica central da obra do arquiteto.
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Entre memória afetiva e patrimônio cultural
Ao longo das décadas, a casa não foi apenas moradia. Após 2012, passou a receber eventos culturais, exposições e gravações, ampliando sua função como espaço de encontro e difusão cultural. Para o arquiteto Nuno Janeiro, esse tipo de uso aponta caminhos possíveis para o futuro de residências modernistas. Ele avalia que imóveis como esse poderiam funcionar como centros culturais ou espaços de convivência, preservando a arquitetura e mantendo o projeto vivo no cotidiano da cidade.

Apesar de sua relevância histórica e arquitetônica, a casa nunca foi tombada por órgãos de preservação. Isso facilita sua negociação no mercado imobiliário, mas também reacende o debate sobre a proteção de obras residenciais de grande valor simbólico, especialmente quando associadas a nomes centrais da arquitetura brasileira.
Uma obra habitável assinada por um mestre
Oscar Niemeyer definiu o projeto de forma simples e direta: “Uma casa simples, diferente e acolhedora”. A simplicidade, no entanto, está longe de ser sinônimo de banalidade. Cada curva, cada desnível e cada escolha material revelam um pensamento arquitetônico profundo, que transforma o ato de morar em uma experiência estética e sensorial.
Colocada à venda, a residência se apresenta não apenas como um imóvel de alto padrão, mas como uma obra de arte habitável, carregada de memória, história e significado. Um privilégio raro, reservado a quem compreende que, ali, arquitetura e vida caminham juntas.





