Resumo
• Exposição “Vilanova Artigas: Estruturas Vivas” ocupa o Salão Caramelo da FAU-USP e celebra os 110 anos do arquiteto, destacando sua obra como criadora de espaços de sociabilidade.
• A mostra reúne maquetes em grande escala, desenhos originais, painéis e textos, com foco em projetos emblemáticos como a FAU, o Anhembi Tênis Clube e a Estação Rodoviária de Jaú.
• O edifício da FAU é apresentado como síntese do pensamento de Artigas: uma arquitetura aberta, sem portas, estruturada por rampas e grandes vãos que incentivam convivência e vida coletiva.
• A trajetória de Artigas — arquiteto, professor e militante — aparece em diálogo com a história política do Brasil, incluindo prisão, exílio, aposentadoria compulsória e posterior retorno à faculdade.
• A programação inclui exibição de documentários e debates com estudantes, professores e a neta do arquiteto, ampliando a reflexão sobre seu legado para a arquitetura moderna brasileira.
Ao entrar no Salão Caramelo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da USP, a sensação é de que o próprio prédio respira. Entre rampas, vãos amplos e a luz que se espalha sem pedir licença, a exposição Vilanova Artigas: Estruturas Vivas, em cartaz até 1º de dezembro, reforça algo que os estudantes e visitantes da casa já intuíram muitas vezes: a obra de Vilanova Artigas não se limita a abrigar atividades, ela cria modos de vida.
Organizada em torno de maquetes de projetos emblemáticos, desenhos originais, painéis e textos do arquiteto, a mostra não se contenta em apresentar documentos históricos. A curadoria, conduzida pela direção da FAU, insiste em um ponto central: mais do que formas e soluções técnicas, Artigas projetava “ambientes de invenção de vida”, espaços coletivos onde a sociabilidade é tão importante quanto o concreto aparente ou a modulação estrutural.
Ao celebrar os 110 anos do nascimento de Vilanova Artigas, a exposição transforma a própria FAU em objeto de reflexão. Não se trata apenas de olhar para maquetes cuidadosamente dispostas, mas de perceber como o edifício que as abriga é, ele mesmo, a síntese mais poderosa dessa arquitetura pensada para educar, reunir e, sobretudo, democratizar o espaço.
O Salão Caramelo como palco das estruturas vivas
Realizar uma exposição sobre Vilanova Artigas justamente no Salão Caramelo tem um peso simbólico enorme. O espaço, com seu pé-direito generoso e sua escala monumental, é o coração da vida acadêmica da FAU. Ali se cruzam estudantes, professores, pesquisadores, visitantes e até curiosos que apenas atravessam o edifício.
O professor Guilherme Wisnik, vice-diretor da faculdade, lembra que o desafio era justamente fazer com que a mostra não desaparecesse diante da força do edifício. O Salão Caramelo não é uma sala neutra de museu; é um grande vazio ativo, em constante uso, que poderia facilmente engolir pequenas obras expositivas. A solução foi apostar em peças de grande escala, capazes de dialogar com a monumentalidade do espaço.
No centro do salão, um modelo em escala ampliada de um pilar do Anhembi Tênis Clube se impõe como escultura estrutural. O elemento evidencia a maneira como Artigas tratava a estrutura não apenas como solução técnica, mas como linguagem. Produzida pela Oficina São João, a peça revela, em sua montagem complexa e em sua estrutura metálica interna, a inteligência construtiva que sustentava os projetos do arquiteto, ao mesmo tempo em que se torna objeto de contemplação dentro do grande vazio da FAU.
Maquetes que contam a história de um pensamento arquitetônico
A exposição Vilanova Artigas: Estruturas Vivas reúne quatro maquetes de projetos originais do arquiteto: a Sede Social do Anhembi Tênis Clube, a Estação Rodoviária de Jaú, o Santa Paula Iate Clube e o próprio edifício da FAU. Mais do que modelos reduzidos, essas peças permitem visualizar como as ideias de estrutura, circulação e vida coletiva se repetem e se transformam ao longo da trajetória de Artigas.
O envolvimento dos estudantes na produção dessas maquetes, sob coordenação de professores, reforça o caráter didático da mostra. A faculdade não se limita a exibir um acervo; ela transforma o processo de montagem e estudo em parte da formação de uma nova geração de arquitetos. Ao observar as maquetes, é possível perceber a coerência entre os projetos, a presença de grandes vãos, as rampas que organizam o percurso, os espaços de encontro e os vazios que articulam a luz natural.
Nesse contexto, o próprio prédio da FAU aparece quase como um personagem. Ao olhar a maquete do edifício ao mesmo tempo em que se caminha pelas rampas reais, o visitante experimenta uma espécie de sobreposição: a arquitetura desenhada e a arquitetura vivida se encontram, e o edifício se revela como síntese do pensamento de Vilanova Artigas sobre a cidade, a universidade e a vida em comum.
Estruturas que não são estáticas: a arquitetura como movimento
O conceito de estruturas vivas, que dá nome à exposição, condensa a maneira como Artigas concebia a relação entre técnica e uso. Wisnik destaca que essas estruturas não são elementos rígidos, pensados apenas para suportar cargas. Elas se tornam expressivas ao revelar as forças que as atravessam, transformando-se em linguagem visível de um modo de construir.
Ao mesmo tempo, essas estruturas moldam o espaço onde a vida acontece. No caso da FAU, a ausência de portas, os grandes vãos e as rampas que organizam os percursos criam o que Le Corbusier chamava de promenade architecturale, o “passeio arquitetônico”. A circulação deixa de ser simples deslocamento e passa a ser experiência, com sucessivas aberturas visuais, mudanças de perspectiva e encontros inesperados.
Na prática, isso significa que a faculdade não é apenas um conjunto de salas; é um grande espaço contínuo, onde a dimensão do coletivo prevalece. Não há um corredor estreito que leva a portas fechadas, mas um plano livre, permeável, em que ateliês, auditórios, salas de aula e o próprio Salão Caramelo dialogam entre si. A arquitetura moderna brasileira, nesse caso, assume um forte componente pedagógico: ela ensina, pelo uso diário do edifício, que o conhecimento se constrói em comum.
Arquitetura que educa: o legado de Artigas para a FAU
Um dos objetivos centrais da mostra é fazer justiça ao acervo de Vilanova Artigas, doado há anos para a faculdade, mas ainda pouco explorado em exposições de grande alcance. Ao organizar a exposição Vilanova Artigas: Estruturas Vivas, a FAU assume o compromisso de olhar para a própria história e para o papel do arquiteto na formação da escola.
No memorial do projeto da FAU, Artigas descrevia o edifício como uma arquitetura que educa. A frase, recuperada na exposição, ganha nova força quando se observa o impacto do espaço sobre quem passa por ali diariamente. A maneira como a luz entra, a sensação de totalidade ao enxergar diferentes níveis ao mesmo tempo, a ausência de barreiras rígidas e o caráter quase urbano do salão central compõem uma verdadeira aula de projeto em escala real.
Ao revisitar documentos, desenhos e maquetes, a mostra não apenas celebra um nome da arquitetura moderna brasileira, mas convida a refletir sobre a função social da arquitetura contemporânea. Em um momento em que as cidades enfrentam desigualdades profundas e espaços cada vez mais fragmentados, a obra de Artigas permanece atual ao afirmar um ideal de espaço público generoso, acolhedor e politicamente engajado.
Cinema, memória e debate: Artigas em movimento
A programação da exposição vai além das vitrines. Ao longo de novembro, a FAU abriga sessões de documentários que aprofundam o olhar sobre Vilanova Artigas. O filme “Vilanova Artigas: o Arquiteto e a Luz”, dirigido por Laura Artigas e Pedro Gorski, ocupa lugar central nessa agenda. Exibido com diferentes mediações — do grêmio estudantil à presença da própria diretora, neta do arquiteto —, o documentário reforça o vínculo afetivo entre a obra e a família, e entre a trajetória pessoal e o contexto político do país.
Outros títulos, como “Vilanova Artigas: Espaço e Programa FAU-USP” e “FAU 30 Anos”, complementam a narrativa ao recuperar momentos-chave da história da faculdade, desde o projeto até o uso cotidiano do edifício. Os debates com professores e estudantes ampliam as leituras, relacionando a obra do arquiteto com o atual cenário do ensino de arquitetura, as transformações urbanas e as disputas por espaço público nas cidades brasileiras.
Assim, a mostra ultrapassa a lógica da contemplação passiva. Ela se transforma em dispositivo de conversa, revisão crítica e atualização do legado de Vilanova Artigas para uma nova geração, que circula pelas mesmas rampas, mas vive outros desafios políticos e urbanos.
Trajetória de um arquiteto, militante e professor
Nascido em Curitiba, em 1915, Vilanova Artigas formou-se arquiteto-engenheiro pela Escola Politécnica da USP em 1937, em uma época em que a arquitetura ainda era especialização dentro da engenharia civil. Sua formação se construiu na interseção entre desenho, artes plásticas e prática de projeto, com passagens marcantes pela Escola de Belas Artes de São Paulo e pela convivência com artistas modernistas do grupo Santa Helena.
Ao longo da década de 1940, Artigas iniciou sua atuação como docente na própria Poli e aproximou-se de debates políticos e culturais que marcariam sua trajetória. A filiação ao Partido Comunista do Brasil, a participação no Primeiro Congresso Brasileiro de Arquitetos e o engajamento em revistas como Fundamentos evidenciam uma compreensão da arquitetura como campo inseparável da vida pública. O arquiteto não se via apenas como autor de edifícios, mas como intelectual inserido em um projeto de país.
Nos anos seguintes, a fundação da FAU e sua atuação como professor consolidaram sua influência sobre gerações de arquitetos. O projeto do Museu de Arte Moderna de São Paulo, os clubes, as rodoviárias e, sobretudo, o edifício da faculdade revelam uma coerência rara: em todos esses trabalhos, a estrutura, o espaço e a forma estão a serviço de um ideal de sociabilidade e de acesso coletivo à cultura e à cidade.
Ditadura, exílio e o peso político da arquitetura
A trajetória de Vilanova Artigas foi profundamente marcada pela repressão do período militar. Após o golpe de 1964, ele foi detido junto a outros professores da USP, sofreu inquérito por sua militância e precisou se exilar em Montevidéu. Mesmo depois do retorno, já em território brasileiro, viveu períodos de clandestinidade na casa de amigos, até conseguir o direito de responder ao processo em liberdade.
A inauguração do edifício da FAU em 1969, no mesmo ano em que Artigas foi aposentado compulsoriamente pelo Ato Institucional nº 5, revela a tensão entre o projeto de universidade que ele defendia e o autoritarismo do regime. A construção de um edifício aberto, sem portas, com grandes espaços de encontro e circulação, contrasta radicalmente com a cultura de controle e vigilância que se instaurava no país.
Nos anos 1970, a mobilização de alunos e professores em torno da exposição “Caderno dos Riscos do Edifício da FAU” expressa o desejo de reintegrar o arquiteto à vida acadêmica. Embora tenha retornado à faculdade como auxiliar de ensino, e não como professor na plenitude de seu cargo, Artigas manteve a relação próxima com a escola e com a família, dedicando-se, inclusive, à criação de brinquedos e desenhos para os netos em seu ateliê.
Sua morte, em janeiro de 1985, em São Paulo, encerra uma trajetória que uniu projeto, ensino, militância e afeto. A exposição Vilanova Artigas: Estruturas Vivas retoma essa história não como um capítulo encerrado, mas como parte de um debate ainda necessário sobre a universidade, a cidade e o papel da arquitetura na vida democrática.
Visitar a exposição é revisitar a FAU com novos olhos
Até 1º de dezembro, quem passar pela Cidade Universitária tem a chance de experimentar o edifício da FAU de maneira diferente. A exposição Vilanova Artigas: Estruturas Vivas está aberta de segunda a sexta-feira, das 8 às 23 horas, no Salão Caramelo, com entrada gratuita.





