Repare na próxima vez que entrar em uma sala de jantar bem planejada: antes do tapete, antes do quadro na parede, os olhos costumam parar nas cadeiras. E não é acaso. Elas ocupam o campo de visão na altura certa, têm volume, textura e, na maioria das vezes, aparecem repetidas em série, o que multiplica qualquer acerto (ou erro) de escolha.
Ainda assim, é comum que o item fique em segundo plano no planejamento da decoração de interiores. O sofá ganha destaque, a mesa de centro é escolhida com calma, o tapete é medido três vezes. A cadeira, muitas vezes, entra como resolução de última hora.
Acompanhe as novidades no Google
Para a arquiteta Gleuse Ferreira, à frente do escritório que leva seu nome, esse é um equívoco recorrente. “O lugar onde nos sentamos diz muito sobre como vivemos e a escolha certa influencia totalmente no ambiente. Enquanto em uma varanda o móvel é um convite ao descanso, em um living pode ser um ponto de destaque e no home office a escolha certa pode significar horas de produtividade”, afirma a profissional.
Por que a cadeira pesa tanto na composição do ambiente
As cadeiras cumprem múltiplas funções dentro de um projeto: ajudam a organizar o layout do espaço, reforçam o estilo escolhido e entram na identidade visual do ambiente como um todo. Um modelo bem escolhido pode ser o ponto focal de uma sala neutra ou reforçar uma linguagem mais clássica, rústica ou contemporânea, a depender do desenho e do material.

Vale lembrar que esse protagonismo não é recente. Por séculos, o móvel foi restrito a figuras de alto prestígio, como os faraós no Egito Antigo, e só a partir do século XVII passou a se popularizar entre a população em geral. Hoje o cenário é o oposto: o mercado de design de interiores oferece um leque amplo de opções, das mais acessíveis às peças icônicas assinadas por nomes como Charles Eames, Le Corbusier, Sérgio Rodrigues e Lina Bo Bardi.
A posição das cadeiras no espaço também interfere na experiência de quem vive o ambiente. Quando bem distribuídas, favorecem a circulação, facilitam a interação entre as pessoas e tornam a decoração de ambientes mais convidativa. O contrário também é verdadeiro: um número excessivo de peças, ou modelos volumosos demais para o espaço disponível, é um erro comum que compromete a fluidez da sala.
Tecido certo depende da rotina da casa, não só do gosto
Antes de decidir qual revestimento de cadeira combina com o projeto, é preciso olhar para quem vai usar o móvel no dia a dia. Circulação intensa, presença de pets, crianças pequenas e até questões de postura mudam completamente a resposta certa.

Modelos com braços entregam conforto extra em momentos de lazer, mas pedem atenção redobrada ao espaço livre ao redor, já que ocupam mais área do que cadeiras sem apoio lateral.
Para quem busca sofisticação, tecidos como veludo, jacquard e boucle trazem textura e um acabamento mais refinado à composição. Gleuse Ferreira pondera, porém, que esse tipo de material não é indicado para toda rotina doméstica: “Eles funcionam muito bem em casas com rotina mais tranquila”, explica.

Já em lares com crianças pequenas ou animais de estimação, a orientação muda de direção. A arquiteta recomenda tecidos com alta porcentagem de poliéster, hoje dominantes no mercado, além de opções como couro, sintéticos e PVC.
E desfaz um mito comum sobre o material: “Ao contrário do que muitos pensam, o poliéster não é um tecido de baixa qualidade. Muito pelo contrário, ele é resistente ao pilling, que são aquelas bolinhas que surgem com o tempo, não esgarça com facilidade e é encontrado em versões com toque macio”, diz Gleuse, que cita ainda a existência de opções em poliéster biodegradável. O projeto também pode incorporar tecidos com tecnologia de proteção contra líquidos e arranhões de gato.
Manutenção muda de acordo com o material escolhido
Cada tecido pede um tipo diferente de cuidado, e ignorar isso costuma custar caro em pouco tempo de uso. Segundo Gleuse, a limpeza profissional é o caminho mais seguro para preservar peças estofadas: “Sempre indico a limpeza com empresas especializadas como meio de assegurar a conservação da peça”, orienta.

Já com o couro, o processo é bem menos trabalhoso. Basta um pano úmido com detergente neutro para a manutenção do dia a dia. “Gosto também de sugerir a aplicação de hidratante para couro com uma flanela”, completa a arquiteta.
Um recurso que costuma passar despercebido no planejamento é a impermeabilização do tecido, técnica que cria uma camada de proteção contra líquidos e reduz a absorção de manchas.
“A impermeabilização ajuda muito, principalmente para quem tem crianças ou gosta de tomar um vinho. Mas é válido reiterar que ela não impede que o tecido suje e, por isso, ainda recomendo a limpeza periódica com profissionais especializados”, pontua Gleuse Ferreira.
Ergonomia é o ponto que mais se ignora na hora da compra
De nada adianta acertar tecido e estilo se a cadeira for desconfortável para uso prolongado. A ergonomia é, para Gleuse, um dos aspectos mais negligenciados na escolha do móvel. Uma boa cadeira precisa respeitar as proporções do corpo, oferecer apoio adequado à lombar e manter altura compatível com a mesa, seja ela de jantar, de trabalho ou de apoio.

“Essa cartilha vale para todos os ambientes, sobretudo home offices, áreas de lazer ou espaços de leitura. Pequenos detalhes como encostos levemente inclinados, assentos com profundidade e braços na altura certa evitam dores e cansaço no dia a dia”, completa a arquiteta.
Encosto, altura e profundidade do assento não são apenas questões técnicas de conforto. Eles também definem a silhueta da peça e, por consequência, como ela dialoga com o restante do mobiliário. Pés finos e alongados, por exemplo, trazem leveza visual e deixam o ambiente com aparência mais arejada, sendo uma escolha eficiente em espaços compactos ou em projetos de linguagem minimalista. Já pés em madeira aparente aproximam o móvel de uma atmosfera mais aconchegante e aquecem a composição, funcionando bem em propostas rústicas ou contemporâneas com toque orgânico.

O acabamento, seja em metal, madeira ou palhinha, também comunica estilo. Uma cadeira em metal cromado assume um caráter mais industrial ou contemporâneo, enquanto a palhinha remete a um repertório mais tropical e atemporal, presente em boa parte do design brasileiro. Já as versões giratórias entregam praticidade extra em espaços que exigem flexibilidade, como escritórios domésticos e cantos de leitura reconfiguráveis.
No fim das contas, escolher a cadeira certa é decidir, ao mesmo tempo, sobre estética, rotina e conforto físico. É um item pequeno em escala, mas com peso real na forma como a sala, a cozinha ou o home office funcionam no dia a dia.
| Para mais conteúdos do Enfeitedecora, siga o nosso X (Twitter), Instagram e Facebook,
inscreva-se no nosso canal no Pinterest,
no Google e acompanhe as atualizações sobre decoração, arquitetura, arte e projetos inspiradores. E-mail: [email protected] |





